Texto:

Brenda Cruz

Jornalista e consultora de conteúdo com 5 anos de experiência, especializada em planejamento estratégico e coolhunting, com foco em questões raciais, sociais e culturais. Atua como consultora na YOUPIX para marcas como AMBEV, Magalu, Electrolux e Smartfit.

Ilustração:

Tainá Esquivel

Identidade pan-africanista no Brasil

Diáspora e mulherismo, conceitos e vivências

A juventude negra, sobretudo no Brasil, encontra-se em um
constante processo de mudanças do seu modo de ser, seja pelos
frequentes estímulos dos conteúdos da mídia ou por diversos
questionamentos que surgem no seu processo de afirmação
identitária. Simplificar essas questões é um desafio e tanto, por
isso apresento o ponto de vista de uma teoria africana.

Uma das possibilidades de reconhecimento é a adoção do
pan-africanismo. Mas o que é isso? A teoria pan-africanista tem
como objetivo central nos fazer perceber que “temos nossas
próprias referências e podemos empreender uma luta de
libertação com base nas experiências africanas”.

Dessa forma, propõe o entendimento de que toda pessoa negra,
dentro e fora da África, são africanas, afinal suas raízes ancestrais
vem de lá, além de utilizar dos ensinamentos sejam eles filosóficos
ou ancestrais, em todos os âmbitos da vida, desde a forma de se
alimentar até a forma de relacionamento com a comunidade.

Pensando não só as faces do racismo, mas também uma visão
afrocêntrica, surge o mulherismo africana. Ele tem como
característica principal pensar as mulheres negras sejam elas de
África ou da diáspora – que é o caso do Brasil -, como lideranças

na reconstrução da integridade cultural do seu povo, defendendo
questões como harmonia, equilíbrio, verdade e reciprocidade.
As experiências de pessoas que adotaram essas visões na sua vida
e decidiram compartilhá-las são diversas, estão presentes até no
campo educacional. E por isso, reuni mulheres que toparam falar
um pouco de suas vivências na perspectiva vinda do
pan-africanismo.

Luanda Nascimento (Maat) tem 35 anos, reside no Rio de Janeiro, é
cientista social e pesquisadora independente de Estudos Africana.
Ela explica o que a fez adotar o pan-africanismo foi “buscar seguir
em vida cada vez mais a cosmovisão ancestral africana e seu
modo de ser”. Além de relatar as suas posições, Maat fala da
importância de Marcus Mosiah Garvey, jamaicano que se radicou
nos EUA e fundou no início do século XX a organização UNIA que
reunia autonomamente milhões de negros.

“Eu gosto de sempre falar de Garvey quando falo do
pan-africanismo porque ele é quase sempre (como a maioria das
grandes personalidades negras) deturpado como um lunático que
pregava o retorno físico à África no lugar de se falar de toda esta
capacidade de organização e gestão de negócios e movimento
que ele tinha”.

Emily da Penha (Makeda Ayana) tem 19 anos, reside no Rio de
Janeiro, é educadora e tem utilizado o pan-africanismo como guia
da sua vida e das suas aulas. Ela diz que “retornar à escola em
uma posição de educadora, falando sobre África, aplicando a
pedagogia do Molefi Kete Asante está sendo uma das experiências
mais desafiadoras da minha vida”, pois o contato das crianças,

público ao qual ela se direciona inicialmente precisou quebrar
algumas barreiras.

“Oferecer a experiência de poder gestar a própria educação é algo
extremamente difícil, mas aos poucos estamos construindo essa
emancipação com eles, há aqueles que diante de assuntos mais
sérios fazem piadas, tentando disfarçar o sentimento que vem
quando falamos a palavra “racismo”, por exemplo, sentimentos que
também são meus e não consigo explicar porque a linguagem do
colonizador não dá conta das minhas emoções. Não dá para
delimitar uma reação geral dos pequenos, cada um com seu Orí,
seus caminhos, que os fazem responder de uma forma única ao
que está sendo proposto”.

Acerca de qual tem sido as mudanças notadas por ela, na
identidade e no posicionamento das crianças, Makeda também
comenta suas vivências em salas de aula e algumas percepções
que teve com alunos e alunas, desde a temáticas diferentes e a
abertura para assuntos interligados com a cultura africana.

“Cada dia é um dia, assuntos como o da terceira aula que foi Esù,
o movimento, a vida e seus significados criaram um distanciamento
de alunos cristãos que antes eram muito interessados. Uma aluna
cristã é capoeirista e se fechou para nós depois dessa aula, já
outros começaram a se interessar, por nós parecermos a cada dia
mais diferente do que eles estão acostumados. A recepção foi
ótima, todo mundo cheio de questionamentos e o que queríamos
com aquilo, agora a gente já consegue chegar neles de uma forma
que pareça familiar”.

É através do conhecimento de novos pontos de vistas e
posicionamentos que podemos modificar ou acrescentar
perspectivas a nossa identidade. A teoria pan-africanista, seus
conceitos, celebrações e variadas vertentes, trazem a chance de
recriarmos uma conexão com nossa ancestralidade e raiz africana.
Essa é uma das maiores preciosidades que podemos cultivar.

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