VOCÊ MERECE SER AMADA: É OXUM QUEM DIZ! Papo reto sobre nosso lugar no mundo como mulheres dignas do amor

Ilustração: Joyce Pereira

O racismo fundamenta a sociedade e possui muitas formas e rostos. Um deles nos diz que nós – mulheres negras – não nascemos para sermos amadas. Quantas vezes você já não se sentiu assim? Para dizer que você merece ser amada resgato os ensinamentos de Oxum. Orixá feminino em muitas religiões de matrizes africanas que possui qualidades e nos dá a direção para viver o amor em nossas vidas através das suas histórias. Assim, levantamos pela força das nossas ancestrais para escolhermos sermos amadas em qualquer lugar que a gente esteja ou queira estar.

Oxum nos revela muitas mensagens, uma delas é para abrirmos nossos caminhos do amor. Pode parecer anúncio de simpatia, mas é um papo reto sobre como olhar para as nossas ancestrais pode revelar muitas possibilidades de reconstrução da nossa autoestima, do lugar no mundo como mulheres negras potentes e dignas do amor. Para falar sobre Oxum recorri a alguns lugares: às mulheres da Oxum em minha vida, à escuta do meu corpo e aos Itans – que são as histórias contadas sobre os orixás que nos dão muitas direções sobre como podemos romper as amarras do racismo.  A pergunta para guiar esta história é: o que Oxum nos ensina sobre o amor? Ela como símbolo do poder feminino – sobre fertilidade, beleza, encantos, mãe devotada e a mulher mais amada. 

Um dos itans conta que “Oxum lava primeiramente as suas joias e depois lava os seus filhos”. Pode parecer egoísta e até vaidoso em uma visão ocidental do mundo, porém, ela é a mulher mais amada, pois se coloca à frente. Para trilhar essa jornada do amor é preciso caminhar com os nossos próprios pés. Talvez pareça óbvio tudo isso, mas quando Oxum lava as joias antes de banhar os seus filhos, ela se entrega em uma jornada para se manter inteira. Ela cuida antes de si para depois cuidar e se entregar aos outros em um sentido de viver nossa coletividade de maneira harmoniosa. Quando falo sobre ser inteira, a imagem não é de uma mulher que sabe todas as respostas e está super bem resolvida. Mana, não é isso! 

Tanto não é que, mesmo sendo a divindade que rege a fertilidade das mulheres, Oxum não engravidou em seu casamento com Orumilá – orixá da sabedoria e do conhecimento das coisas secretas. Imagina como não foi difícil viver isso sendo a gravidez um dos seus desejos. Quando falo em ser inteira, falo em viver nossa força e nossas vulnerabilidades. Já em seu casamento com Xangô – orixá da justiça, Oxum foi até o oráculo de Ifá para buscar respostas sobre sua fertilidade e só depois voltou grávida. Ela soube reconhecer os limites dos seus poderes e pediu ajuda.

Originalmente, o oráculo é uma forma de obtermos respostas sobre as questões que nos angustiam através das divindades. Um dos meus oráculos é a terapia em grupo com mulheres negras e suas diferentes histórias e questões sobre como viver a afetividade e romper com a solidão que o racismo nos impõe. Colocamos no grupo as nossas vulnerabilidades, medos e o auto-ódio que é um sentimento de negar quem somos. Colocamos na roda a rejeição e o abandono. Mas veja, abrimos o nosso peito em um lugar seguro, entre irmãs. Esse lugar da terapia é olhar fundo em nossos espelhos – como Oxum olha o seu abebê. Olhar no espelho não é apenas ver nossas imagens, mas sim olharmos para quem somos e o que sentimos. É um caminho para sermos mulheres fortes, seguras e prontas para experimentar a afetividade de diferentes maneiras.

Cultivamos a  beleza através da estética, afirmando as nossas identidades como mulheres negras em busca de nossas raízes, um exemplo disso é o uso do cabelo crespo natural – black power, cortes assimétricos, box braids, cores e búzios como adereços. Vibramos lindamente na frequência de Oxum que é tão vaidosa com seu corpo e sua imagem. Para sermos inteiras como ela, é preciso não só resgatar nossa beleza, mas nossa potência feminina. 

Oxum é a mulher mais amada porque se coloca em primeiro lugar e com pessoas que sejam dignas do seu amor. Isso nos mostra que as experiências vivenciadas passam pelo nosso corpo sim, mas também pela mente e o espírito. Estar inteira através das qualidades de Oxum é buscar um caminho pela saúde integral do corpo e da mente, cultivando a espiritualidade e reverenciando as nossas ancestrais.  

Qual caminho temos trilhado para experimentar o amor? Qual caminho a sua família tem trilhado para experimentar o amor? Qual o caminho que as suas ancestrais trilharam para experimentar o amor? Quando falo em ancestrais, falo sobre a linhagem familiar – suas avós, suas tias e suas irmãs mais velhas. Já pensou em resgatar essas histórias? Olhar para o nosso passado ancestral é uma forma de entender o lugar que ocupamos nesse mundo, ou seja, quem somos em relação aos nossos afetos – família, amigas, aliadas, parceiras, relacionamentos amorosos e colegas de trabalho. Como você vive o amor nesses lugares? Perceba se é nesse lugar que você quer continuar e quais as mudanças você quer viver. 

Olhei para o passado e vi que as minhas avós, as Marias, experimentaram o amor de muitas formas. Mas, uma qualidade do amor que viveram e me marcou foi a que as fizeram construir o seu próprio caminho. Ergueram terreiros para os orixás com suas comunidades e usaram calça jeans numa época que mulheres só vestiam saias. Para mim, é essa a experiência mais importante a ser cultivada tanto nos momentos sozinha quanto naqueles em que me relaciono com os outros. Nós somos a chave que abre as portas para o amor.

O maior desafio é nutrir a nossa autoestima para além da estética. Sei que nos olhamos no espelho e nos achamos maravilhosas – porque somos. Mas esse espelho se quebra quando saímos à rua e nos sentimos só. Por isso, trago a mensagem de Oxum para nos resgatar desse lugar, na crença que não nascemos para sermos amadas. Você pode não seguir o caminho dos orixás, mas, mesmo assim, pode cultivar à sua maneira as mensagens de Oxum sobre a vida. Respira fundo e comece a se ouvir, de verdade. Faz uma respiração profunda e se conecte. Talvez você perceba  a mensagem, escute uma música e dance como ela com os toques dos atabaques – dance o Ijexá. 

A minha escrita circular só existe porque há um ponto de partida e de chegada –  o nosso coração é aberto para a magia do amor que sentimos por nós. Quando esse amor transborda, o mundo a nossa volta se modifica.  Acreditamos que nascemos para sermos amadas em qualquer lugar que a gente queira estar! Serena Assunção, uma cantora paulistana que já virou ancestral canta para Oxum: “A sua luz é a luz dos seus encantos. A sua luz é a luz do seu axé”. Você merece ser amada, e é Oxum quem diz. Axé!

Suzana Barbosa

Escrever é o caminho que encontrei para ser resistência e construir afetos. A palavra salva, conecta e cria pontes. Sou geógrafa de formação e acredito na política que se faz no cotidiano junto ao nosso povo.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *