Grupo de jovens negras de diversas idades vestem roupas com dizeres de protesto e carregam os dizeres também.

REPRESENTATIVIDADE IMPORTA? Uma reflexão sobre pessoas negras nos espaços de poder

Ilustração de Rayssa Molinari

Representatividade importa? Não foram poucas as vezes que me fiz essa pergunta ao longo dos últimos anos, principalmente, após o contato com a militância nos movimentos sociais. Estamos em ano de eleições municipais no Brasil e, apesar de o debate sobre representatividade das pessoas negras nos espaços de poder estar em alta, nas redes sociais, durante qualquer período ultimamente, decido por refletir sobre essa ocupação em cargos no executivo (presidenta, governadora e prefeita) e no legislativo (senadoras, deputadas e vereadoras), buscando associar com o momento em que estamos vivendo.

Antes de nos debruçarmos sobre a questão da representatividade, vamos pensar um pouco como está a situação do nosso país agora, principalmente, no que diz respeito ao papel que o poder público deve cumprir e, em muitos casos, não o faz. O Brasil vive um momento de constante ataque aos direitos da população, entre as quais, destacam-se o fim da política de valorização do salário mínimo, a reforma da previdência, os cortes nas verbas da educação, o aumento dos produtos nos mercados e a recente tentativa de iniciar um processo de privatização do maior sistema de saúde gratuito do mundo, o SUS, em plena pandemia do COVID-19.

E ainda tem muito mais. A atual administração que está no Palácio do Planalto coloca em prática, cotidianamente, um projeto da branquitude aliado ao capitalismo que objetiva ampliar, ainda mais, os abismos que separam brancas/os e negras/os na sociedade. Quando observamos quem são as pessoas que estão no comando dessa política de morte direcionada ao povo brasileiro, vemos homens brancos de famílias ricas que se perpetuam nas estruturas de poder. Nesse cenário, a representatividade negra nos cargos políticos surge como um caminho que precisa ser trilhado.

Aqui, cabe ressaltar que essa pauta não surge agora, mas a sua permanência, até os dias de hoje, aponta que pouca coisa mudou no que diz respeito à presença de mulheres negras e homens negros no executivo e no legislativo. Abdias do Nascimento, político e ativista negro, em 1954, quando se candidatou a vereador (RJ), trouxe o slogan “Não vote em branco! Vote no preto!”, o que marcou a incorporação da negritude como parte do discurso político de militantes do movimento negro. Nós não podemos esquecer que os nossos passos vêm de longe, como afirma Jurema Werneck – feminista negra. Se hoje debatemos fervorosamente sobre representatividade nos espaços de poder, devemos às lutas das nossas mais velhas.

Então, o negócio é votar em pessoas negras nas eleições para garantir que a gente consiga ter representatividade nos espaços de poder? Mais ou menos. O primeiro exercício que devemos fazer quando surge esse questionamento é lembrar se todas as pessoas negras que ocupam cargos políticos estão comprometidas com o combate ao racismo e outras formas de opressão que violentam a população negra brasileira. Aposto que você respondeu que não, o que é verdade. Existem muitas pessoas negras que fortalecem o projeto político da branquitude, reforçando as desigualdades sociais. Por qual motivo fazem isso? Bom, eu não sei, mas isso serve para a gente pegar a visão de que negras e negros não são iguais e pensam diferente.

Votar em pessoas negras comprometidas com as pautas antirracistas e de transformação social é um dos passos que devemos dar se quisermos iniciar um processo de mudança, mas só isso não resolve o problema do racismo. Essa opressão está enraizada na estrutura social, ou seja, a sociedade brasileira é racista e isso acaba por nos exigir um cuidado com os discursos difundidos, massivamente, que associam a presença de pessoas negras em cargos institucionais à falsa ideia de que o racismo pode ser combatido individualmente. Não, o racismo é estrutural e, portanto, demanda da luta coletiva para ser derrubado.

Concordo com Silvio de Almeida, advogado e filósofo negro, quando ele afirma que “a representatividade é sempre institucional e não estrutural”, mas, assim como ele, defendo que a representatividade negra antirracista é resultado da ação dos movimentos sociais e que, por isso, deve ser vista enquanto uma conquista do povo negro. A representatividade comprometida com as nossas lutas possibilita tirar da invisibilidade pautas imprescindíveis para a sobrevivência da população negra e, ao mesmo tempo, promove um processo de conscientização coletiva que é fundamental para uma mobilização social que objetiva desmantelar estruturas hierárquicas e racistas.

Além disso, ter pessoas negras como vereadoras e prefeitas mostra que, sim, nós temos capacidade de ocupar os mais diversos cargos e espaços na sociedade e que não nascemos para estar subalternas/os aos desejos da branquitude. O que temos que ter em mente, a todo tempo, é que esse modelo político vigente não nos serve, pois ele se sustenta sobre as nossas costas e ao custo dos nossos sangue e suor, mas é indispensável “hackear” essa estrutura para destruí-la. Isso, sem dúvidas, perpassa por colocar os nossos irmãos e as nossas irmãs lá, eleger homens negros e mulheres negras para fundir forças que irão abrir novos caminhos para trilharmos.

Por isso, você,  jovem e adolescente negra ou aliada da luta antirracista, lembre-se quando for confiar o seu voto em alguém. Essa pessoa está, de fato, comprometida com as mudanças estruturais necessárias para o surgimento de um novo modelo político e social ou está, simplesmente, apropriando-se dos discursos das minorias políticas para se promover e chegar a um cargo de poder, associando-se àqueles que comandam a política da morte? Não se esqueça da importância do seu voto e do poder transformador que ele tem. Representatividade vazia não muda nada, mas representatividade comprometida com a luta é mais do que necessária para construir uma sociedade livre do racismo.

Lara Carina Amorim

Lara Carina Amorim, a moça da Tia Nastácia Doces e Trufas (procure saber), desenvolve pesquisa sobre adolescentes negras em privação de liberdade. Escritora nas horas vagas, bacharela em Humanidades pela Universidade Federal da Bahia e graduanda em Estudos de Gênero e Diversidade pela mesma instituição, no Portal Black Fem, atua como editora-chefe e colunista do portal.
“Fomentar debates sobre a condição da mulher negra na sociedade contemporânea, trazendo situações do nosso cotidiano, embasado em intelectuais negras.” (Lara)

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