Quando você não aguenta mais ouvir falar sobre política no Brasil: o autocuidado para resistência em 2019

Ilustração por Giulia Estrela

Dois mil e dezoito foi um caos, não dá para negar, de um lado tivemos a eleição presidencial, o assassinato de Marielle Franco, o avanço da intolerância e do conservadorismo, tudo ficou em jogo: a educação, meio-ambiente, população indígena/negra e mulheres, ninguém escapou dessa. De outro, um embate entre dois candidatos no segundo turno causando uma divisão política e também o desconforto psíquico e físico principalmente para nós jovens e adolescentes negras. Cansa, sabemos bem.

Foram inúmeras vezes que lemos e ouvimos provocações na Internet, na rua e no Facebook nem se fala. O medo, ansiedade e insegurança que 2019 chegasse e com ele um governo incerto, violento e obscuro estaria por vir e veio, infelizmente. Alguns Ministérios trocaram de nome, a cultura literalmente foi extinta, o desemprego com índices altos e alguns direitos já nos foram retirados. Voltamos para 1964 e aceitando ou não, precisamos nos cuidar porque o sistema racista e patriarcal em que vivemos já nos adoece diariamente afetando a nossa saúde mental.

Se você nunca ouviu falar em autocuidado e bem-estar preste atenção nas próximas frases deste texto. Autocuidado é a maneira que encontramos de avaliar nossas rotinas, como, por exemplo: hábitos alimentares, ambientes que frequentamos, círculos sociais ou até mesmo uma atividade física, ou nossa convivência familiar. Além disso, o bem-estar anda lado a lado com o autocuidado, é através dele que percebemos coisas ou atitudes que nos deixam tristes, ou felizes nos fazendo perceber se realmente precisamos vivenciar determinadas situações.

Ana Maria Hernández e Nallely Guadalupe, mexicanas e defensoras dos Direitos Humanos publicaram um artigo chamado “O autocuidado como estratégia política” nele, algumas frases me chamaram atenção, como, por exemplo: “Nem dinheiro, nem tempo são fatores limitantes”; “Cada pessoa sabe do que precisa”. Resumidamente, não se sinta culpada por não conseguir se cuidar da maneira que gostaria ou por obrigatoriedade de alguém, você tem o seu próprio tempo então demore o quanto quiser, isso não é um problema.

Entendo que a sua realidade é bem diferente da minha, às vezes as coisas parecem impossíveis principalmente quando estamos sem esperanças do futuro. De mesmo modo, deixarei aqui alternativas e reflexões para que você não deixe de acreditar neste novo ciclo.

São nas pequenas mudanças que encontramos nossa paz interior, é claro, você vai encontrar a sua também. Mas para que isso aconteça é necessário dar o primeiro passo. Você gosta de ler? É através da leitura que conseguimos ter contato com outras histórias, podendo assim conhecer outro mundo e até mesmo novas narrativas. Você pode iniciar um clube de leitura em seu bairro, fazendo trocas de livros ou até mesmo convidar suas amigas.

Sei que é difícil, mas tente largar um pouquinho das redes sociais, na maior parte do tempo nos dedicamos aos vícios: Facebook, Instagram, Twitter e Whatsapp, não é fácil, sei, eu também não largo do celular. Entendo que nesses aplicativos tem muita coisa legal, mas também existem coisas ruins. Existe um mundo todo lá fora esperando por você, é importante que possamos interagir com as pessoas, esta atitude pode se iniciar dentro de casa. Quantas vezes você já conversou com sua mãe ou até mesmo com a sua irmã? Comece com um bom dia!

Faça uma rotina diferente, tire 10 minutos de caminhada, mesmo que seja para ir ao mercado. Compre uma agenda, organize o seu dia. Escute uma música nova, assista um filme ou até mesmo uma série, limpe o seu quarto, tome o seu chá preferido, faça Yoga, pratique um esporte ou luta. É através dessas pequenas práticas é que conseguimos canalizar as frustrações, angústias e inseguranças.

Ana Claudino, criadora do Canal Sapatão amiga, em um de seus vídeos fala: “É preciso saber a hora de parar e recomeçar.” O parar em que ela se refere é tirar um momento para cuidar de si mesma, de fazermos nossa própria autocrítica, de reconhecermos o lugar em que estamos e qual lugar queremos ocupar.

Audre Lorde, mulher negra, feminista e lésbica também levantou o termo autocuidado em sua publicação no epílogo de “A Burts of Light – traduzido: explosão de luz (1988)” dizendo: “Cuidar de mim mesma não é auto indulgência, é autopreservação, um ato de luta política”. Sendo assim, façamos da palavra de Audre um instrumento de fortalecimento para enfrentar este ano. Cuidar de si mesma não é um ato egoísta, muito pelo contrário, é a forma que encontramos de nos proteger e bem como também aqueles que amamos. O autocuidado também é coletivo, então sempre que puder escutar alguém, escute. Nós do Portal Black Fem praticamos isso sempre, escutamos umas às outras para só assim conseguirmos chegar a uma conclusão sobre determinado assunto.

Mesmo assim, ainda busco compreender a forma com que o Governo Brasileiro abandona as questões de saúde mental da população negra, negando a luta por uma sociedade sem manicômios, fechando os olhos para o monitoramento de questões étnico-raciais nos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) e negligenciando os atendimentos. É o nosso povo que mais morre por transtornos mentais e comportamentais.

Não vai ser fácil, mas também não será impossível. Juntas conseguiremos criar estruturas fortalecedoras para enfrentar qualquer desafio mesmo em meio ao caos em que nosso país se encontra. Não deixe de acreditar no seu potencial. Atrevo-me a fazer das palavras de Maya Angelou as minhas: “que possamos sempre nos levantar, porque quando uma sobe a outra sempre puxa.” Até a próxima!

Beatriz Pimentel

Beatriz Pimentel ou só Bia, é formada em Comunicação Social com ênfase em jornalismo pela Universidade Estadual do Centro-Oeste, a Unicentro. Sendo extremamente opinativa, sempre tem algo a nos acrescentar nas reuniões e isso nos levar sempre a refletir sobre o nossa coletividade. Feminista Negra Interseccional, atuou como fundadora do Coletivo Feminista Claudia da Silva em Guarapuava/PR onde hoje administra somente a página no Facebook. Além disso, é facilitadora para rodas de conversas entre jovens e adolescentes negras que buscam empoderamento estético e político.
“Essa oportunidade será de extrema importância para o meu crescimento e fortalecimento de nossa luta. Por Marielle, Claudia, Luana, por todas nós!” (Beatriz)

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