PUNHOS CERRADOS E BICO NA DIAGONAL Construindo autonomia através de autodefinição e autoavaliação

Ilustração por: Andréia Reis

Todos os dias, lembro como se fosse hoje, eu seguia um pequeno ritual antes de ir à escola ou ao cursinho pré-vestibular. Tirava a touca de nero que usava para dormir, ligava a “chapinha” na tomada, passava, cuidadosamente, pelos fios arrepiados, não raro queimava o meu couro cabeludo nas incansáveis tentativas de disfarçar a raiz crespa que se recusava a diminuir de volume. Quando concluía esse processo, sentia-me mais próxima daquilo que as pessoas julgavam ser bonito. Essa foi a minha rotina durante muitos anos.

A estética das mulheres negras, independente da idade é uma marca da nossa origem. Os cabelos crespos eram, e em alguns casos continuam sendo, motivo de vergonha. Aquela sensação de se olhar no espelho e não se identificar com as representações de beleza que passavam nas propagandas, nas novelas e nos filmes acabava se transformando em um episódio diário de dor e violência contra o nosso próprio corpo.

Saindo do ambiente doméstico, muitas de nós, adolescentes e jovens negras, íamos para a escola ou para a universidade. Tais espaços, assim como outros na sociedade, refletiam o conjunto de hostilidades que enxergavam os corpos negros como os seus principais alvos. Dessa forma, sentíamos na pele uma contradição: onde deveríamos produzir conhecimento e aprender novas formas de pensar e refletir sobre o mundo, éramos vítimas das mazelas do racismo cometido por colegas e, até mesmo, por professores. 

No momento em que dialogamos com outras meninas negras sobre as suas experiências nesses ambientes constatamos que o preterimento que nos atinge não se trata de casos isolados. Aqui, quando falo sobre essa rejeição não estou me limitando à esfera afetiva. Éramos e somos colocadas à margem, inclusive, por aqueles que deveriam nos dar o suporte para o enfrentamento da discriminação racial. Por isso, não tem como negar que a escola e a universidade se constituem como espaços de perpetuação da violência contra adolescentes e jovens negras e negros.

O que são essas violências que sofremos? Obviamente, elas não são criadas por nossos colegas. O racismo se expressa de diversas formas, sendo atos intencionais os que mais chamam atenção. Pensando em um dos focos deste texto, a violência que atinge adolescentes e jovens negras, vamos nos debruçar em um racismo implícito, ou seja, escondido, que, na maioria das vezes, é interpretado como uma brincadeira sem más intenções, mas que deixa, marcas profundas em quem sofre.

Não foi por acaso que comecei relatando uma parte marcante da minha adolescência e do início da minha juventude. A nossa estética é um dos primeiros alvos do racismo recreativo, um tipo específico de opressão racial que se utiliza do humor para depreciar minorias raciais. Quantas vezes escutamos, em salas de aula, ofensas, como “cabelo duro”, “cabelo de bombril”, entre outras? E, depois delas, os risos, os pedidos de desculpa e as justificativas de que “era só uma brincadeira”? É uma brincadeira que custa caro e que tem efeitos devastadores na vida e no comportamento das mulheres negras.

No nosso caso, a aparência, pensando a partir de uma construção dos papéis específicos de gênero, é algo que pesa e quando não é aceita, em diversos casos, nos sentimos forçadas a mudar e se adaptar à norma. O humor racista, parte do racismo recreativo, não atinge as pessoas negras apenas na estética. Os estereótipos que associam homens negros à criminalidade e mulheres negras ao sexo fácil, por exemplo, são, constantemente produzidos, perpetuados e disseminados pelos meios de comunicação de massa (rádios, jornais, televisão aberta) e, consequentemente, são reproduzidos pelo imaginário popular, através de piadas, e incorporados por instituições, como o judiciário, que se utilizam dessas imagens preconceituosas para punir e marginalizar os corpos negros.

Dito isso, cabe refletir sobre como essas visões carregadas de racismo são internalizadas nas práticas da população cotidianamente. Não é de agora que sabemos que os espaços de decisão do nosso país e do mundo estão concentrados nas mãos de homens, brancos, ricos e heterossexuais. Assim, podemos, facilmente, concluir que a educação, no Brasil, está sendo disputada constantemente  de modo a manter a permanente propagação dos ideais desses homens que querem manter os seus privilégios na sociedade.

Nós, pessoas negras conscientes da opressão racial, cansamos de presenciar irmãs reproduzindo violências que fortalecem a criminalização dos seus corpos. Inúmeras vezes nos perguntamos por qual razão elas estavam fazendo isso, sem compreender que na maioria das vezes essas mulheres reproduzem informações espalhadas massivamente em todos os cantos.

Todo esse debate acerca da forma como as pessoas negras se enxergam é extremamente importante para se pensar os efeitos dessas representações carregadas de preconceitos. Até agora, essas visões duram, como, por exemplo, na hipersexualização dos seus corpos em todas as idades, na violência ginecológica que elas sofrem com a justificativa de que são resistentes às dores e, ainda, na negação de que as mulheres negras podem conquistar outros espaços para além do trabalho doméstico.

Bom, mas como combater essas imagens? O pensamento feminista negro, para além de todo histórico de atuação prática e teórica no combate às discriminações de gênero e raça aponta caminhos importantes no que diz respeito aos estereótipos direcionados às mulheres negras. Um dos seus principais temas fala sobre a importância da autodefinição e da autoavaliação. A meu ver, são umas das ferramentas para construir e manter a nossa autonomia subjetiva, assim como resistir aos incessantes ataques do racismo.

Antes de falar por qual razão a autodefinição e a autoavaliação devem ser disseminadas e colocadas em prática, cabe explicar o seu significado, segundo Patricia Hill Collins, uma feminista negra estadunidense diz que: “A autodefinição é o processo de desafiar o conhecimento produzido por homens brancos que resultou nessas imagens das mulheres negras e a autoavaliação é a validação das imagens construídas por mulheres negras sobre elas próprias, substituindo os estereótipos por representações reais e autênticas.

Como aplicar esses conceitos na prática? Não é fácil. O racismo não quer que as mulheres negras tenham nenhuma autonomia. E, aqui, falo principalmente da subjetiva. A autonomia subjetiva diz respeito à forma como nos enxergamos e nos posicionamos no mundo. Quando incorporamos e reproduzimos os estigmas racistas sobre nós mesmas, vamos, a todo tempo, nos colocar no lugar do “outro”, da “margem”, ou seja, de que nós não somos melhores porque não somos iguais aos brancos.

Assim, a autodefinição e a autoavaliação funcionam como aliadas das mulheres negras, pois, dão novos significados à nossa compreensão sobre o funcionamento da sociedade, fazendo com que nós percebamos a ação do racismo, mas que também iniciam uma transformação das representações. O que somado ao trabalho constante de combate às opressões em várias esferas provocam mudanças necessárias sobre a forma que o povo negro é visto.

Sabemos que a nossa vida, de mulheres negras nunca foi um mar de rosas, mas com afeto, reconhecendo as nossas irmãs e irmãos como iguais, fortalecendo espaços coletivos de resistência à opressão racial, transmitindo a sabedoria ancestral por gerações, iremos, na raça, combater o nosso principal inimigo, pois entre nós, deve prevalecer a paz. Permaneceremos em luta, com os nossos punhos cerrados e com o bico na diagonal, pois jamais abaixaremos as nossas cabeças para o racismo.

Lara Carina Amorim

Lara Carina Amorim, a moça da Tia Nastácia Doces e Trufas (procure saber), desenvolve pesquisa sobre adolescentes negras em privação de liberdade. Escritora nas horas vagas, bacharela em Humanidades pela Universidade Federal da Bahia e graduanda em Estudos de Gênero e Diversidade pela mesma instituição, no Portal Black Fem, atua como editora-chefe e colunista do portal.
“Fomentar debates sobre a condição da mulher negra na sociedade contemporânea, trazendo situações do nosso cotidiano, embasado em intelectuais negras.” (Lara)

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