Produção jornalística de Luiz Gama e pesquisa de Ligia Fonseca Ferreira, é tema de live da ABI Bahia

“Qual é verdadeiramente e onde encontrar a ‘obra’ de Luiz Gama?”, “como ele se ‘põe em cena’ e se revela em seus textos?”. Essas perguntas aparentemente simples guiaram as investigações da professora doutora Ligia Fonseca Ferreira sobre o advogado, poeta e jornalista Luiz Gama. Em seu novo livro, “Lições de resistência”, a escritora reúne o fruto de três anos de garimpo pelos artigos publicados pelo abolicionista baiano, entre 1864 e 1882, na imprensa de São Paulo e do Rio de Janeiro. Nesta quinta-feira (18), às 18h, a Associação Bahiana de Imprensa (ABI) vai receber a autora numa live com transmissão pelo Facebook @abi.bahia. O evento online comemora os 190 anos do nascimento de Luiz Gama, celebrados no próximo dia 21 de junho.

Desde o início da década de 90, quando ainda fazia sua pesquisa de doutorado, a professora persegue o propósito de oferecer a oportunidade de se ouvir a palavra de Luiz Gama, de apreciar sua subjetividade, o seu discurso. “Constatei que havia mais escritos sobre Luiz Gama – muitas vezes incompletos, ficcionais e sobretudo pouco fidedignos – do que obras de Luiz Gama disponíveis”, observa. Ela destaca, inclusive, que até um de seus célebres poemas, “Quem sou eu?”, é chamado inapropriadamente “Bodarrada”, como forma depreciadora para se referir ao negro.

Segundo Ligia Ferreira, nessa época, “era relativamente conhecida a história de vida de Luiz Gama”, recheada de episódios dramáticos: nascido livre em 1830, em Salvador, filho da mítica Luiza Mahin, vendido pelo pai branco aos 10 anos como escravo, condição em que chegou a SP em 1840, onde viveu até o final da vida. Gama viveu oito anos escravizado até recuperar, de forma sigilosa, as provas de ter nascido livre; não frequentou escolas, começou a aprender e a ler aos 17 anos de idade; tornou-se autodidata e, num destino improvável para um negro, ex-escravizado, numa sociedade imperial e escravocrata, tornar-se-ia renomado abolicionista, um libertador.

No entanto, para ela, não fazia sentido se debruçar sobre sua biografia, investigar sua afro-descendência, “contar suas realizações literárias, citar trechos de seus escritos, se não lhe conhecêssemos a obra já em vida consagrada”, e que ainda continua a ser descoberta e publicada, como é o caso de muitas crônicas. “Logo tive a convicção de que, mais importante do que sua espantosa biografia, seu principal legado eram seus escritos e eu precisaria encontrá-los”, recorda.

O livro está disponível na versão digital desde o início do mês de maio | Foto: Divulgação

Lições de resistência 

O novo livro Lições de resistência. Artigos de Luiz Gama na imprensa de São Paulo e do Rio de Janeiro (1864-1882), disponível desde o início de maio em e-booké um antigo sonho de Ligia Ferreira, realizado graças ao selo Edições SESC São Paulo, que abraçou o projeto pela coerência com sua linha editorial de divulgação de obras para o conhecimento da história e das culturas africana e afro-brasileira. Com prefácio assinado pelo historiador e jornalista Luiz Felipe Alencastro, a obra traz uma vasta “Cronologia” do autor e do contexto histórico nacional e internacional; um “Apêndice” com cinco cartas de Luiz Gama, reproduzidas no volume por conterem elementos que as colocam em diálogo com alguns artigos.

A pesquisa para o livro consistiu em levantar, em acervos digitais e físicos, artigos de autoria de Luiz Gama, comprovada por sua assinatura, que tratassem de três eixos principais: escravidão, questões de liberdade, republicanismo. Ela explica que, para manter a coerência deste recorte temático, foi preciso deixar de fora muitos artigos que versavam sobre assuntos diversos. Ligia Ferreira esperava, no mínimo, dobrar o número de artigos conhecidos publicados em Com a palavra Luiz Gama. E para a sua surpresa, foram encontrados 61 textos, sendo 42 inéditos.

O evento realizado pela ABI, por iniciativa do diretor Luís Guilherme Pontes Tavares, tem como anfitrião o presidente da entidade, Walter Pinheiro, e conta com a apresentação da comunicadora I’sis Almeida (idealizadora e coordenadora do Portal Black Fem), bacharel interdisciplinar em Artes e graduanda de jornalismo pela UFBA. Ligia Ferreira trará uma importante contribuição para entender o que a obra de Gama teria a nos dizer sobre seu espantoso letramento, sobre a construção de sua cultura literária, jurídica e política, sobre sua engenhosa arte, sobre as estratégias mobilizadas por um negro e ex-escravizado que conquistou o saber e a palavra. “Eu espero ser uma simples ‘mestre de cerimônias’, fazendo ecoar a voz de Luiz Gama, a fim de que ele se sinta carinhosamente abraçado pelos jornalistas baianos”, afirma a pesquisadora. A autora aguarda agora a finalização da versão impressa da obra.

Desenho de Luiz Gama por Angelo Agostini

Luiz Gama, o jornalista

Embora possua formação em Letras, Ligia Ferreira cursou três anos de Jornalismo. De acordo com a professora, Luiz Gama revela-se um mestre da narrativa jornalística, à qual imprime seu estilo pessoal, quase sempre colocando-se em primeira pessoa, interpelando e provocando seus leitores, quando figura ele mesmo como personagem de alguma matéria. “A leitura de seus escritos é de surpreendente atualidade”, ressalta.

Segundo ela, os artigos denunciam o racismo institucional, pregam valores antirracistas pelos quais boa parte do mundo inteiro se mobiliza hoje. “É fundamental dar visibilidade a sua atuação num campo ao qual se dedicou com ardor e paixão, e preencher, assim, uma lacuna na história da imprensa brasileira”. É essa a contribuição que Ligia espera dar neste novo livro, dedicado Luiz Gama que, pouco depois de sua morte, foi saudado por seus pares como um “trabalhador incansável do jornalismo”.

“Eu desejava mais do que ler ‘trechos’ dos artigos, nos quais antevia o talento, a voz singular, a influência do jornalista Luiz Gama. Queria compreender o contexto histórico, social e político naquele momento de tensões, transições e “polarizações”, como se diz hoje”, conta. Compreender suas redes de sociabilidade bem como os conflitos e inimizades presentes no campo sempre minado de defesa de um outro regime e de uma ordem que garantisse a Liberdade em amplo espectro: para Luiz Gama, a primeira delas, e que ele conheceu na pele, a liberdade dos escravizados, as liberdades individuais e o precioso bem, para aquele intransigente democrata, a liberdade de expressão e a liberdade da imprensa.

Foto: Divulgação | Ligia Fonseca Ferreira

Sobre a autora

Ligia Fonseca Ferreira é professora do Departamento de Letras da UNIFESP – Universidade Federal de São Paulo. Bacharel em Letras e Linguística pela Universidade de São Paulo. Fez mestrado em ciências da linguagem (análise do discurso jornalístico) na Universidade de Paris 13. Possui doutorado pela Universidade de Paris 3 – Sorbonne, com tese sobre a vida e a obra de Luiz Gama. Publicou vários trabalhos inéditos sobre o tema. É autora-organizadora da edição crítica da obra poética integral do autor em Primeiras Trovas Burlescas & outros poemas (Martins Fontes, 2000), da antologia Com a palavra Luiz Gama. Poemas, artigos, cartas, máximas (Imprensa Oficial, 2011, 2018, 2019). Acaba de lançar Lições de resistência: artigos de Luiz Gama na imprensa de São Paulo e do Rio de Janeiro, 1864-1880 ( Edições do SESC, 2020). É membro dos grupos de pesquisa “Diálogos Interculturais” e “Relações Culturais Brasil-França” do Instituto de Estudos Avançados da USP e do NEAB – Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros da UNIFESP.

*Texto enviado pela Assessoria de Comunicação da Associação Baiana de Imprensa (ABI)


SERVIÇO

Lançamento do livro Lições de resistência, de Ligia Fonseca Ferreira

Dia 18 de junho (quinta-feira), 18h

Local: Facebook da ABI – Associação Bahiana de Imprensa (@abi.bahia)

Mais informações: ascom@abi-bahia.org.br | 7198791-7988 (Wa)

Site: http://www.abi-bahia.org.br/
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