Para ler com algo de escrever nas mãos: o poder da organização

Ilustração por Tainá Esquível

Quantas vezes você pensou em um projeto, mas desistiu antes mesmo de pôr em prática? Quantas vezes você tirou o janeiro para organizar o seu ano, focar na escola, na faculdade e se viu perdida quando chegou em junho? Sei que foram muitas. Mas agora é hora de ler com algo de escrever nas mãos! E digo isso por experiência própria. Não adianta dizer que a sua agenda é a sua própria cabeça. Existe um ditado que diz: “cada cabeça é mundo” e se cada cabeça é mesmo um planeta inteirinho, é inadmissível pensar que alguém dispense ter o seu próprio mapa.

Você deve primeiro estar se perguntando quem sou para exigir que você organize a sua vida de modo escrito, por isso, antes de tudo, irei lhe apresentar a minha história. Assim como você, sou uma garota negra (com idade mais avançada), mas ainda me considero uma menina. E também, iniciei uma fase muito importante da minha vida muito nova, a faculdade. Aos 17 anos ingressei na Universidade Federal da Bahia. A primeira graduação que cursei chama-se Bacharelado Interdisciplinar em Artes, ou simplesmente Bi em Artes, como o curso é carinhosamente chamado pelos alunos. Agora, estou no quinto semestre de jornalismo na mesma instituição. Sou também, a menina que iniciou “a história maluca de sem recurso financeiro algum, criar um portal para adolescentes e jovens adultas negras”, o Portal Black Fem.

A aspa acima destacada é apenas umas das coisas que ouvi antes de iniciar o portal. O pior, é que não foi ninguém que me disse isso. Fui eu mesma. Eu sabotava a possibilidade de fazer acontecer. Pensava, mas não anotava nada. Deixava nos rascunhos da nota do celular, mas depois de algum tempo, apagava. Eu desistia de mim. Preferia admirar o trabalho de outras pessoas, até que percebi o valor da caneta e do papel, melhor ainda, descobri o poder do mapa mental.

“Mapa mental”, é o nome dado para um tipo de diagrama sistematizado pelo psicólogo inglês Tony Buzan, voltado para o gerenciamento de informações, de conhecimento e de capital intelectual”. E por falar em intelectualidade, eu ainda duvidava que tinha alguma. Como mulher negra, durante muito tempo, acreditei não ser capaz de produzir intelectualidade, ainda que estivesse na universidade. Mesmo assim, apostei no mapa do Tony. Comecei a anotar cada palavra dada pelos meus professores de jornalismo, além das palavras, era seta para lá e para cá, nada comparado ao trabalho de uma ilustradora, mas muitos desenhos começaram a surgir em meus cadernos.

Comecei também a ler inúmeras colunas de revistas e jornais. Pessoas como Stephanie Ribeiro, Djamila, incluindo professores da minha graduação que escrevem para jornais. Comecei a ler mais livros, riscar as folhas. Tirei do pedestal aqueles(as) que mencionei já terem seus projetos e comecei a enxergá-los como pessoas normais, passíveis de erros e acertos, mas que ainda assim, sustentavam suas ideias. A partir daí eu já estava acertando. Quando percebi, o meu mapa estava enorme, cheio de caminhos e possibilidades. Virou uma cama de gato e era a hora de conhecer outras formas para me organizar, mas antes, sustentando a certeza de que não só sou, como posso me tornar uma intelectual de sucesso.

Costumo dizer que quero ser jornalista televisiva, algo que parece impossível para alguém que raras vezes se vê representada na televisão, e quando digo isso, percebo alguns olhares de julgamento, primeiro por ser negra, segundo por morar na Bahia, local onde o mercado jornalístico não é lá essas coisas todas. Qual o meu atual modelo de organização? Chama-se Planner ou “caderno inteligente”, modinha entre as blogueiras, crush das organizadas. Se você ainda não sabe do que se trata, aconselho então que procure saber. Em tempos de drive e nuvens, o modelo organizacional se tornou queridinho entre adolescentes e jovens da nossa geração. Nele, dá para anotar todas as minhas metas e atividades diárias e assim,  me lembro o quão meus objetivos são importantes para a minha evolução pessoal, profissional e intelectual.

Somos fortes, potentes, a voz do futuro. Basta um toque de autogestão para que avancemos ainda mais e nenhuma outra fique para trás. Já se organizou hoje?

I'sis Almeida

I'sis Almeida é uma baiana arretada! Possui formação técnica em Comunicação Visual pelo Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial, o SENAI e completou o primeiro curso de nível superior como Bacharela Interdisciplinar em Artes pela Universidade Federal da Bahia, a UFBA. Hoje ela está no segundo curso de nível superior, Comunicação Social com habilitação em Jornalismo através da mesma instituição de ensino. Não menos importante citar, I’sis é responsável pela idealização do portal como um veículo de comunicação e atua como uma das coordenadoras do portal.
“Acredito no trabalho coletivo e na possibilidade de através dele criarmos um novo futuro para adolescentes e jovens adultas negras. Estamos trabalhando com a faixa etária entre 12 a 29 anos mas nada impede que aqui, todas as mulheres negras se sintam representadas” . (I’sis)

2 thoughts on “Para ler com algo de escrever nas mãos: o poder da organização

  1. Eu tenho 17 anos, e esse ano irei prestar o vestibular e isso me deixa tão ansiosa e nervosa em todos os sentidos que eu não consigo me organizar. Ao mesmo tempo que eu quero muito me organizar parece que não funciona :/
    Enfim, obrigada pelo seu texto e por compartilhar experiências, espero que eu, assim como você, mulher negra, consiga chegar numa faculdade e consiga também me organizar daqui pra frente.

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