Onde tem amor eu faço minha morada: relacionamentos interraciais e a afetividade das jovens e adolescentes negras

Ilustração: Tainá Esquivel

A grande maioria das relações em nossas vidas são resultado de construções sociais e culturais que se configuram, também, como relações de poder e expressam hierarquias entre grupos. Essas formas de organização injustas da sociedade aparecem ao longo da nossa história e refletem, por exemplo, na ordem vigente que subordina pessoas negras às pessoas brancas.

 

Quando nos debruçamos sobre a realidade das mulheres negras no Brasil e em outros lugares, nessa ou em outras arenas, percebemos que ocupamos a base da pirâmide social, com os nossos direitos humanos constantemente violados, sem o devido acesso às políticas públicas que viabilizam a superação das desigualdades e, como se não bastasse, somos deixadas de lado no amor. O racismo e o sexismo, opressões que nos atingem cotidianamente, atuam em todos os aspectos das nossas vidas. Somos vistas muitas vezes como aquelas que não merecem ser amadas e cuidadas.

 

O amor nesse cenário se constitui como um sentimento humano e como a humanidade das mulheres negras, assim como a dos povos negros, indígenas, LGBTQIA+ e outros foi historicamente negada, acabamos por ser construídas como objetos completamente desprovidos de sentimentos. O descaso que incide sobre as mulheres negras não é uma exceção. Pelo contrário, não são raras as vezes que nos acostumamos com a falta de cuidado, como se essa prática fosse a que nos restasse.

 

Por não seguir o padrão de beleza eurocêntrico e ocidental que é branco, adolescentes e jovens negras experimentam formas de preterimento, ou seja, de menosprezo nas relações afetivas, que são variadas como os tons de suas peles. As de pele clara são frequentemente associadas a concepção de mulatas e têm seus corpos hipersexualizados; as retintas são exploradas no campo do trabalho e marginalizadas na esfera afetiva. Em ambos os casos, muitas de nós, jovens, vivenciamos a solidão.

 

Existem diferentes lentes possíveis para analisar as relações afetivas e nós temos diferentes maneiras de nos relacionar com essas possibilidades. As lentes comumente utilizadas para análises afetivas, a meu ver, não nos servem, uma vez que temos experiências muito específicas e marcadas por violências. Dessa forma, fica evidente que um homem negro se relacionando com uma mulher branca, por exemplo, não pode ser interpretado como a mesma coisa que uma mulher negra se relacionando com uma pessoa branca. Partindo disso, torna-se indispensável uma reflexão voltada para os relacionamentos interraciais de jovens e adolescentes negras com pessoas brancas, sejam afetivo-sexuais ou de amizade.

 

De maneira recorrente, o debate a respeito das relações entre mulheres negras e pessoas brancas recebem críticas e, de um modo geral, muitas vezes, essas críticas se sustentam na esfera individual, como se a ação do racismo e das demais opressões não fosse algo enraizado nas estruturas. Isso, obviamente, desemboca em uma discussão superficial e pouco produtiva da questão em si. Cabe registrar que não estou aqui ignorando os propósitos coloniais da miscigenação ou, muito menos, romantizando as violações sofridas pelo povo negro no decorrer da história no Brasil, consequências cruéis de relacionamentos interraciais não consentidos. Os estupros que corromperam as mulheres negras com o intuito de embranquecer a população brasileira e criar uma raça pura ainda são feridas abertas na nossa pele.

 

O preterimento de jovens negras não está restrito ao relacionamento afetivo-sexual. A todo tempo somos confrontadas com relatos de silenciamento de nossas irmãs que vivem em relações de amizade com pessoas brancas, seja pelo fato de as suas demandas não serem vistas como tão importantes quanto as de seus amigos ou, simplesmente, pelo fato do espaço para se expressarem serem negados ou silenciados. O abandono se torna uma marca nas relações afetivas que as mulheres negras vão desenvolvendo no decorrer de suas  existências. Naturalizamos a falta de amor e, quando recebemos migalhas, enxergamos como uma salvação, como se aquele pouco de atenção, muitas vezes carregada de violência e desprezo, fosse o necessário. 

 

Tais situações são comuns e podem acontecer no interior de qualquer relacionamento, inclusive o interracial. As poucas demonstrações de afeto e cuidado que experimentamos são compartilhadas entre mulheres negras que, assim como nós, vivenciam o racismo, o sexismo e uma série de opressões que agem simultaneamente. O hábito de não ser amada, nos leva, muitas vezes, a relacionamentos tóxicos e violentos. Bom, então o caminho seria não se relacionar com pessoas brancas, uma vez que elas são as nossas opressoras? Na verdade, não. Como disse anteriormente, o problema do racismo está na estrutura da sociedade e cometemos um grave erro ao individualizar a questão. Uma das expressões desse erro é quando mulheres negras são linchadas no tribunal da internet e chamadas de palmiteiras por assumirem relacionamentos afetivos com pessoas brancas.

 

Nós não estamos em posição de privilégio em praticamente nenhum aspecto da sociedade e, defendo aqui, que permanecemos onde encontramos amor, cuidado e atenção. Vivemos com um medo constante de sermos usadas, mais objetificadas do que, cotidianamente, somos. Repetidamente, nos perguntamos se estamos sendo amadas de verdade ou se, mais uma vez, seremos descartadas e substituídas por mulheres padrões.

 

Evidentemente, não podemos esquecer que fomos educadas em uma sociedade que coloca as pessoas negras como feias e as pessoas brancas como bonitas e dignas de afeto. O amor tem cor sim! No Brasil, um país racista, isso tem muito peso. Nós estamos em posição de desigualdade, subordinadas às instituições e às estruturas de poder que são organizadas e dominadas pela supremacia branca. Em uma incessante batalha de resistência, nós, mulheres negras, temos mais desafios. Alimentar a nossa consciência de que não precisamos ser salvas por ninguém e que somos autossuficientes é uma missão diária, visto que somos alvos do desamor. 

 

É imprescindível também que tenhamos atenção para não cair nas armadilhas de relacionamentos abusivos. É chato? Com certeza. Queremos amar sem preocupação, mas temos que nos esquivar e fugir das relações mascaradas de amor. Dito isso, coloco aqui que quando mulheres negras se relacionam com pessoas brancas, elas não estão traindo a sua raça ou deixando de ser quem são. As nossas experiências são legítimas. Os estigmas que carregamos quando assumimos tais relações não ajudam no combate ao racismo. Pelo contrário, reforçam o não lugar das mulheres negras, à margem. Uma posição que nos permite uma análise diferenciada da realidade que estamos inseridas, mas, ao mesmo tempo, nos reserva muita dor e solidão.

 

Agora, falo diretamente com você, mulher negra que, assim como eu, sente as inseguranças causadas pelo racismo estrutural que não nos dá sossego em nenhum momento da vida. Nós merecemos ser amadas em todas as relações afetivas que construímos. Não devemos aceitar menos que isso. Seguiremos desromantizando os nossos afetos, construindo novas representações do que são as mulheres negras e afirmando, incansavelmente, de que, sim, nós somos dignas de amor sem miséria.

Lara Carina Amorim

Lara Carina Amorim, a moça da Tia Nastácia Doces e Trufas (procure saber), desenvolve pesquisa sobre adolescentes negras em privação de liberdade. Escritora nas horas vagas, bacharela em Humanidades pela Universidade Federal da Bahia e graduanda em Estudos de Gênero e Diversidade pela mesma instituição, no Portal Black Fem, atua como editora-chefe e colunista do portal.
“Fomentar debates sobre a condição da mulher negra na sociedade contemporânea, trazendo situações do nosso cotidiano, embasado em intelectuais negras.” (Lara)

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