O trono é nosso, mas o lugar tem sido delas!

Ilustração por: Joyce Pereira

Em 2014, Nayara Justino foi consagrada à Globeleza e no mesmo mês em que sua vinheta foi ao ar acabou sumindo repentinamente da programação. Na época, para justificar o ocorrido, uma matéria foi publicada pela Uol dizendo que a modelo recebeu muitas críticas nas redes sociais, porque consideravam que ela estava longe do “estilo das atuais rainhas de bateria.” Em 2015, a Globo optou por não falar mais sobre o assunto, desconsiderando a escolha do público e dar o título à Érika Moura.

Como uma Globeleza que ganhou por meio de votação pública perde o título? Qual era o perfil “estilo das atuais rainhas de bateria” que Nayara não tinha e que sustentam Érika há quatro anos de lá para cá? Seria mesmo esse o perfil das rainhas de bateria? São algumas das perguntas que se você não fez até agora, deveria ter feito. É que o período escravocrata continua sendo alimentado diante de olhos que tudo veem, mas não se dispõe a fazer uma reflexão diante do que a mídia oferece como conteúdo durante o carnaval.

Nayara e Érika são duas mulheres pretas! A primeira recebeu “críticas” – termo utilizado pela Uol para mascarar o racismo, já a segunda, pelo tom de pele mais claro, foi mais aceita, tornando-se a Globeleza, um posto questionável dado ao histórico de hipersexualização do corpo da mulher negra que ele carrega.

Pensar sobre o racismo estrutural e institucional que perdura sobre as Globelezas até hoje é mais do que necessário. Precisamos entender porque não vemos tantas mulheres pretas retintas também como rainhas de bateria nos desfiles das escolas de samba, e combater o modo como usam nossos corpos e cores para nos separar, objetificar e tomar os lugares que são nosso por direito. Por isso, indo mais a fundo na reflexão você deveria olhar para estruturação dos desfiles nas avenidas e se perguntar: Porque temos tantas passistas pretas e a maioria das Rainhas são mulheres brancas?

O Brasil sendo um país racista, jamais permitiria que pretas de comunidade fossem destaques de um evento de suma importância dentro e fora do país, uma vez que está acostumado a encobrir seus crimes racistas, por meio do mito da democracia racial. Esse discurso colabora com a ideia de  pessoas de cor não possuem barreiras para a ascensão social porque somos um povo miscigenado, ou seja, viemos de uma mistura que determina que “somos todos iguais” e que precisamos viver em harmonia.

Essa mito sustenta o roubo, por meio do embranquecimento de cargos que devem ser ocupados, prioritariamente, por mulheres e homens pretos. Dado que, as escolas de samba são sustentadas pelas comunidades que durante o ano inteiro trabalham para saírem impecáveis na avenida enquanto são explorados pelos brancos.

“Barracão, eu ainda vejo o mesmo barracão, mas o espírito não. Faz pensar que não valeu. Faz pensar que quem morreu, morreu em vão”. Esse foi o refrão cantado por Mart’nália na música “Quero ver quarta-feira”. Quando escuto-a, consigo entender que possivelmente se Ismael Silva – homem preto, criador da primeira escola de samba estivesse vivo, choraria ao ver como os brancos têm conseguido, ano após ano, dia após dia, se apropriar da manifestação de um povo oprimido e esvaziar os significados de um ato com potencial revolucionário.

Junto a Mart’nália, a música é cantada por Emicida, que conseguiu em versos resumir que os brancos buscam trazer para dentro das avenidas: “Quem é que fica e ajuda a erguer outro carnaval?”. A resposta é simples, a comunidade. “Mas quem não é antes da quarta tá dizendo tchau”, ele continua.

Precisamos despertar, ver e retomar o que é nosso por direito. Assim como Evelyn Bastos, Rainha de Bateria da Mangueira – que já teve seu posto quase que roubado quando ofereceram dinheiro pelo título –  reivindica quando tem a oportunidade de falar em alguma entrevista. Nada mais justo que a rainha, o mestre-sala, a porta bandeira, mestre de bateria e as musas sejam gente da gente.

Não podemos deixar com que roubem os sonhos das passistas mirim, mostrando-as como referências de cantoras, atrizes e modelos brancas como rainhas e ainda em fantasias de extrema hipersexualização. É necessário que possamos fazer um trabalho de conscientização das nossas crianças para restaurar a união de mulheres pretas, que é enfraquecida, quando a Globo, sem responsabilidade alguma diz por meio de ações que meninas de pele mais clara são mais bonita que as de pele escura.

“Não deixe o samba morrer!”.

Glória Greice

Glória Greice, também conhecida como Glorete é carioca da gema e atualmente estudante de nutrição na UNIRIO. Ama cantar, mas nunca sonhou em ser cantora, até o momento em que descobriu como usar a sua voz. Ela considera que cantar e escrever sejam dons dados por seus ancestrais que tiveram as vozes roubadas. Para Glória, a voz é uma importante arma de combate ao racismo e ela a utiliza em todos os espaços que ocupa. No portal, atua como colunista.
“Considero o portal o lugar certo para alcançar pessoas. Lutar numa guerra sozinho é cansativo. Poder lutar num coletivo que tem o mesmo objetivo que o seu é uma benção!” (Glória)

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