O FLORESCIMENTO DA IDENTIDADE: a busca da autonomia capilar e estética para construção da mulher negra

Ilustração por: Joyce Pereira

A beleza negra é uma forma de emancipação. Novos padrões são definidos constantemente, se antes nem existia a possibilidade de a negritude estética e capilar ser aceita, agora há um modelo do que é o ideal. Isso ultrapassa a participação na ação da comunidade negra e também regula o mercado.

As campanhas publicitárias levantam a bandeira dos “cachos ideais”, produtos que vão deixar seu cabelo semelhante aos de determinada influenciadora com a aparência perfeita e técnicas com o intuito de modificar a textura ou curvatura capilar, tudo isso para alcançar o falso ideal que nos é vendido: os cachos dos sonhos.

No atual modelo de produção, o capitalismo, tudo pode ser mercantilizado, inclusive o corpo negro. O direito de ter a aceitação de seu biotipo natural — cor da pele, o cabelo crespo e toda característica fenotípica geral sempre foi negada à população negra.

Atualmente o sistema se vê obrigado a incluí-las por objetivos exclusivamente comerciais. A busca pela identidade racial no movimento negro está em “alta” e se tornou porta para o comércio. Quando marcas de produtos capilares, por exemplo, incentivam e são influenciadoras para que mulheres negras assumam seus cabelos naturais acabam por retirar toda a afirmação identitária que é o que define algo ou alguém.

Ainda em um processo de desconstrução dos ecos do passado escravocrata, a busca pelo pertencimento e pela construção da identidade é uma demanda de grande importância para a população negra. A autonomia capilar e estética é uma das formas de se emancipar, libertar e amenizar a influência externa.

A principal saída que o povo preto encontrou para se encaixar em uma sociedade opressora que impõe padrões e nega a negritude foi a de aceitar as mudanças estéticas e processos capilares químicos para se assemelhar o máximo possível do considerado belo — a branquitude.

A falta de representatividade atrasou esse processo, pois, não há como nos enxergamos — de maneira estética — em quem não se parece conosco, o suscetível nessa situação é a falta de pertencimento. Porém, com a mobilização e a pressão contra toda e qualquer forma de racismo está contemplando os meios de comunicação, principalmente a internet.

Estabelecendo a representatividade nesses espaços e estimulando outros a se fortalecerem, tendo como ferramenta uso da estética para resistir cada vez mais as pessoas negras estão se desvencilhando dos padrões impostos e começando a se enxergar em seus semelhantes.

O cabelo natural das pessoas negras é uma parte fundamental do processo de libertação e construção da identidade. Por conta da luta pelo reconhecimento que contraria a submissão aos padrões impostos e adquire uma postura política de assumir o cabelo natural surgiram diversas formas de resistência, entre elas, a transição capilar.

É um processo que compreende o período entre o abandono dos esforços para manter os fios alisados artificialmente e o retorno ao cabelo natural, sem químicas. Aceitar a naturalidade de seu cabelo crespo ou cacheado é uma revolução, tanto interior como exterior. Não há nada de errado em querer usar a versatilidade que te pertence e alisar, fazer uso de tranças, penteados, tinturas – afinal, finalmente conquistamos essa “liberdade”.

Entretanto, é importante reconhecer que o que nasce em sua cabeça é seu, não pertence a essa posição de inferioridade e completa mercantilização em que foi colocado, os fios tecem história. A grandiosa luta, ascensão do negro e a união do movimento em suas diversas vertentes contribuíram para que as discussões sobre a população negra na mídia firmassem posições de constante modificação, não por uma postura antirracista dos proprietários desses meios, mas pelas inúmeras vozes negras que exigiam essa posição e pela comercialização envolvidas.

Tudo isso sem perder o caráter discriminatório, o racismo velado – apesar de não escancarado e por vezes propagado de uma forma considerada “não ofensiva” por quem o faz, não deixa de ser racismo. A desvalorização da negritude fixou na sociedade brasileira a ideia de que somos naturalmente inferiores e que apenas com o embranquecimento, seja pela miscigenação, seja pela negação estética, conseguiríamos alcançar uma aparência “menos pior”, ou seja, menos negra.

A estética comunica identidade, cultura e ancestralidade. O primeiro passo para a autonomia estética é uso do auto amor como resistência, para lutar contra o racismo em outros parâmetros é essencial que enfrentemos aquele que foi enraizado dentro de nós: o ódio por nós mesmos.

Aqui cabe citar M. Scott Peck que define o amor como “a vontade de se expandir para possibilitar o nosso próprio crescimento ou o crescimento de outra pessoa” e é exatamente sobre o que isso se trata. Crescer e auxiliar o crescimento do outro.

A aceitação do seu próprio ser é de extrema importância e leva tempo. Nesse processo, é necessário se apoiar e se espelhar em seus semelhantes, não há quem te entenda melhor que aqueles que são como você. É importante tomar cuidado com a internet, para que não se torne um ambiente completamente tóxico.

Quando seguimos apenas figuras que possuem o fenótipo distante dos nossos nas redes sociais a nossa autoestima diminui, pois começamos a procurar defeitos em nós por não termos a mesma aparência que nos é vendida. Para que haja o florescimento da identidade é preciso que procuremos nos encaixar nos lugares que pertencemos com os nossos.

Rayanne Candido

Rayanne Candido, mais conhecida como Ray, é estudante de Jornalismo na Universidade Estadual Paulista (UNESP) de Bauru e natural de São Paulo Capital (famosa terra da garoa). Filha da água doce, apaixonada pelo verão e pelo sol, atua como colunista no portal e acredita que a escrita é uma das formas mais bonitas de mudar o mundo.
"Admiro e carrego comigo o conceito de Ubuntu, eu sou porque nós somos, eu sou porque pertenço, e além disso, tenho o objetivo de fazer o máximo que eu puder para que aquelas que vierem depois de mim possam ir além". (Rayanne)

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