O espírito das relações: o encontro privilegiado entre os seres

Ilustração: Andréia Reis

Infelizmente, o processo de escravização obrigou nossos ancestrais a reprimir seus sentimentos de forma desumana como alternativa e até mesmo estratégia de sobrevivência. A concepção de afeto e o conceito de união para eles e nós, africanos em experiência brasileira, ou seja, diáspora, foram reduzidas. Podemos perceber hoje, como isso se reflete nos dias atuais.

A ausência de relações afetuosas profundas nos aproximou de um vazio que impede frequentemente que sigamos as determinações escolhidas pelo nosso “eu” interior, o espírito. Para manter boas relações, é necessário que as cultivemos com cuidado, e, principalmente, intimidade. A intimidade na tradição da etnia africana Dagara, oriunda da região de Burkina Faso, inclui também as conexões entre o mundo dos humanos e o mundo invisível, dos antepassados. Nessa perspectiva a intimidade não se restringe apenas a relação de um casal,  trata-se de “um encontro privilegiado entre dois seres”, sejam eles homem e mulher, pai/mãe, filhos/filhas, dentre outros. 

No continente africano, quando se fala em espírito, a referência feita é  a tudo que existe na matéria, ou seja, no mundo físico. Essa força de vida sagrada e invisível possui a memória do passado e a visão do futuro. Em “Espírito da Intimidade: ensinamentos ancestrais africanos sobre maneiras de se relacionar”, Sobonfu Somé, autora africana de etnia Dagara, apresenta que os relacionamentos são frutos de acordos que os espíritos ancestrais fizeram no plano espiritual antes mesmo de nascer. 

Somé explica que o “alto da colina” – uma metáfora para apresentar a forma de levar as relações em sua comunidade, é o momento inicial das relações vividas no ocidente, porém, deveria ser justamente ao contrário. Podemos exemplificar o fato através dos relacionamentos amorosos, que comumente tem ápice no início das relações. Todo relacionamento, especialmente amoroso, segundo a autora deveria começar de baixo, da base da colina, considerando o tempo e sua força espiritual para a condução da convivência até o topo dela.

Trilhar uma jornada de companheirismo ao lado de alguém, não importa quem seja, é convidá-lo a partilhar uma jornada espiritual em busca da felicidade, onde objetivos estejam alinhados, o respeito e a ajuda mútua sejam a base da relação. Caso assim ocorra, a família, comunidade ou casal respeitará ao propósito interior e o alinhamento dos espíritos, que irão considerar essa construção na vida de ambos ou mais pessoas. 

Frequentemente podemos observar a nossa volta, em nossa família, no relacionamento com os amigos, nas redes que construímos, a dificuldade de expressar afeto. No seriado “Todo Mundo Odeia o Chris” esse distanciamento entre a população negra e seus sentimentos foi representado em um de seus episódios. Em uma cena apresentada ao se referir ao pai Julius, Chris fala: “Dizer eu te amo não fazia o gênero do papai. ‘Vejo você de manhã’, queria dizer que ele ia voltar para a casa. Voltar para a casa era o jeito dele dizer eu te amo”. Na cena, o que parece em primeiro momento simples, revela-se problemático. A constante necessidade de ser forte para a luta diária do trabalho e outras responsabilidades para com a família cria uma espécie de “casca”, principalmente na figura das mães, pais e responsáveis pela família. Uma casca tão grossa que ela não se desfaz até mesmo nos momentos onde deveríamos nos sentir mais seguros para demonstrar afeto: em família.

Sou incapaz de me lembrar a última vez que tive contato com um conteúdo tão profundo sobre as relações, talvez nunca tenha tido. Estava tão cômoda à superficialidade e a liquidez, – conceito da modernidade – que acabei surpresa ao entrar em contato com a complexidade dessa filosofia. Ela não trata só de mim ou de você, se trata de nós! Colocar todos os nossos encontros em um patamar de preciosidade, cientes que cada um deles tem a força para nos aproximar ou não do que já foi escolhido pelo espírito. Mostra sobre como valorizar o outro e a si mesmo.

O fortalecimento da noção de  comunidade é essencial para que possamos alcançar o “topo da colina” de maneira literal, plicando a metáfora em nossas vidas.. É necessário que nossas “cascas rígidas seja desconstruídas para que possamos estar em fraternidade com os nossos iguais. A recente ideia compartilhada de “ubuntu” tem muito haver com a filosofia Dagara. Desejo que em contato com ela, possamos entender o verdadeiro sentido do “eu sou porque nós somos” e a importância da retomada de nossa história e cultura como necessária.

Rayanne Candido

Rayanne Candido, mais conhecida como Ray, é estudante de Jornalismo na Universidade Estadual Paulista (UNESP) de Bauru e natural de São Paulo Capital (famosa terra da garoa). Filha da água doce, apaixonada pelo verão e pelo sol, atua como colunista no portal e acredita que a escrita é uma das formas mais bonitas de mudar o mundo.
"Admiro e carrego comigo o conceito de Ubuntu, eu sou porque nós somos, eu sou porque pertenço, e além disso, tenho o objetivo de fazer o máximo que eu puder para que aquelas que vierem depois de mim possam ir além". (Rayanne)

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