Como a ancestralidade pode nos ajudar com o presente/futuro

Ilustração: Rayssa Molinari

Durante minha infância nunca ouvi falar da palavra ancestralidade. Somente na juventude, talvez entre os 15/16 anos me deparei com a questão. O termo veio à tona exatamente quando decidi que era hora de parar de escovar os cabelos – pois realizar procedimentos com  a química nunca foi algo que a minha mãe permitiu ou que fiz por livre e espontânea vontade. Recordo-me da palavra flutuando sobre os meus ouvidos entre passeatas e manifestações em prol da re(afirmação) da negritude soteropolitana. Observação: Salvador é a cidade onde vivo. Nos cartazes de orgulho ou protesto, lia coisas como por exemplo: “respeitem a nossa ancestralidade!”, e a visão destes dizeres jamais deixou de cortejar minha imaginação.

No início tudo parecia muito abstrato. “Legado de antepassados”, é o que o dicionário aponta. Me perguntava se eram dos meus avós e bisavós, naquela época, todos por parte materna vivos, que estavam falando. Somente com o tempo descobri a resposta: não. Não apenas. A ancestralidade, nas religiões de matrizes africanas – das quais informo não fazer parte – por exemplo, é um processo divino pela qual a morte não se finda. É uma visão cosmológica, ou seja, ultrapassa os limites do mundo físico. Alguém morrer na terra, não significa exatamente que o seu espírito, no sentido mais amplo da palavra, tenha ido embora. Isso explica como muitas personalidades ainda que tenham falecido há muito tempo, façam parte da memória coletiva dos negros de toda terra.

Escrevendo este artigo, Suzana Barbosa, também colunista do Portal, alertou-me sobre ampliar a visão sobre ancestralidade, e explicar melhor a quem lê. “A noção de religião é muito própria do ocidente e da diáspora, de maneira geral. Mas a ancestralidade faz parte de cosmologias que vão além da religião, como na filosofia kemética (oriunda do Kemet – antigo Egito) e na cultura yorubá”, alertou a escritora.

Voltando para minha relação com a noção de ancestralidade, quando pisquei os olhos, já era 2018, ano em que pela primeira vez (pasmem) ouvi falar sobre “afrofuturismo”. Na época, aconteceu em Salvador um evento intitulado com o termo, mas acabei não conseguindo participar. O “pasmem”, é porque afrofuturismo não é coisa nova, o movimento foi criado na década de 60. Eu não era nem nascida! Como ainda não tinha muita informação, logo me vi inserida suposto num paradoxo: estava engatinhando as minhas noções sobre ancestralidade, enquanto muitos irmãos e irmãs começaram a falar sobre olhar para o futuro, mais especificamente, sobre o afrofuturismo. 

O movimento afrofuturista nasceu com objetivo de inserir pessoas negras no contexto de futuro. Na época, os filmes e livros de ficção-científica não representavam as pessoas afro. Paralelamente, ocorria o crescimento da cultura Beatnik, uma entusiasta de ritmos afro-americanos. Sun Ra, instrumentista norte-americano, poeta e auto-intitulado “filósofo-cósmico” é considerado por muitos o “pai” do movimento. O nome adotado por Herman Poole Blount (Sun Ra), ilustra um dos princípios do afrofuturismo: a conexão com o passado, o místico e o “primitivo”. Ou melhor dizendo, a importância dos nomes em nossas vidas, como já citara Glória Greice no texto “Me recuso a carregar o nome do opressor”.

Em artigo para o site OkayAfrica, que engloba temas como arte, cultura e música, a escritora e ativista Alisha Acquaye cita o afrofuturismo como “uma maneira de entender o passado e  presente, criando futuros que podemos controlar através da afrocentricidade, tradições e estética africanas, entrelaçadas com tecnologia, ficção científica e consciência social”. Um dos grandes exemplos visuais de afrofuturismo são os figurinos do filme Black Panther (Pantera Negra) mas há, também exemplos reais, como a “Akon City”, ou cidade de Akon em tradução literal, um exemplo mais interligado a questões econômicas e desenvolvimento social e urbano. A Cidade de Akon em tradução literal, trata-se de cidade futurista que está sendo planejada pelo cantor de rap e R&B norte-americano e ascendência senegalesa Aliaune Damala, mais conhecido como Akon. Em entrevista para o G1, Damala revelou que seu maior objetivo é “deixar um legado”, referindo-se a ser lembrado por todos tempos. 

 “Alma antiga, corpo moderno, mente futurista”, é uma frase da qual gosto muito e acredito representar tanto este texto, quanto resumir o conceito de afrofuturismo. Ela foi publicada através do perfil @zauskush no Instagram, uma plataforma de conteúdo multimídia e afrocentrado que reúne 18 mil seguidores e constantemente compartilha conteúdos direcionados ao resgate do conhecimento ancestral dos povos africanos do continente e da diáspora. Portanto, se para saber onde queremos chegar, é preciso lembrarmos da onde viemos, que comecemos por uma busca genuína e empenhada das histórias que nos foram negadas sobre o passado, para percorremos o presente, com cabeça erguida, vislumbrando o futuro.

I'sis Almeida

I'sis Almeida é uma baiana arretada! Possui formação técnica em Comunicação Visual pelo Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial, o SENAI e completou o primeiro curso de nível superior como Bacharela Interdisciplinar em Artes pela Universidade Federal da Bahia, a UFBA. Hoje ela está no segundo curso de nível superior, Comunicação Social com habilitação em Jornalismo através da mesma instituição de ensino. Não menos importante citar, I’sis é responsável pela idealização do portal como um veículo de comunicação e atua como uma das coordenadoras do portal.
“Acredito no trabalho coletivo e na possibilidade de através dele criarmos um novo futuro para adolescentes e jovens adultas negras. Estamos trabalhando com a faixa etária entre 12 a 29 anos mas nada impede que aqui, todas as mulheres negras se sintam representadas” . (I’sis)

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