O afeto é revolucionário: a importância das redes de afetividade entre mulheres negras

Ilustração: Giulia Estrela

Para nós, enquanto povo, a construção do sentido de comunidade sempre funcionou como estratégia de sobrevivência e consequentemente de resistência. Desde o princípio mulheres negras têm se organizado e se fortalecido em redes de afetividade que conscientemente ou não subvertem as lógicas de poder impostas, incitando a competição entre as mulheres. Isso não significa dizer que durante a nossa trajetória não somos incentivadas a competir entre nós, mas que, dado as nossas realidades e opressões específicas é necessário criar redes de cuidado e proteção que nos fortalecem enquanto mulheres negras. 

O amor e a afetividade são aspectos que permeiam toda a nossa vida, se constituindo como agentes formadores das nossas personalidades. Enquanto povo tivemos o afeto negado, e em algumas circunstâncias tivemos que abdicar do ato de amar ou de demonstrar tal sentimento.  A intelectual negra, artista e ativista social bell hooks apresenta no texto “Vivendo de amor” diversos pontos importantes para refletirmos sobre a negação do ato de amar e seus desdobramentos na vida do povo negro. Tais marcas permanecem nas nossas vidas como feridas abertas, difíceis de serem cicatrizadas, por isso é tão importante buscar estratégias que resgatem o amor e o exercício da nossa afetividade.

As discussões sobre amor e afetividade precisam superar as questões românticas nos relacionamentos amorosos e sexuais, existem outras formas de se relacionar e de pensar como a nossa comunidade nos construiu. As redes de apoio e proteção podem transformar as nossas noções de amor. Ele precisa ser exercido primeiro conosco. 

Bell hooks diz que para nos amarmos interiormente precisamos enxergar e reconhecer  que o amor é uma necessidade. Dedicar atenção para as nossas fragilidades, entrar em contato com os nossos sentimentos e quando necessário pedir ajuda. Ela diz que muitas mulheres negras tem a dificuldade de acionar alguém para ajudá-las por receio de expor suas fragilidades, isso está diretamente relacionado ao estereótipo da mulher negra forte que é capaz de superar e enfrentar todas as suas dores e ainda servir de suporte para as pessoas que estão próximas a elas. Para romper com esse condicionamento, precisamos assumir as nossas dificuldades, com isso seremos capazes de nos enxergar com  carinho, depositando em nós mesmas os cuidados que por vezes são esquecidos. 

Bell ainda nos diz que quando escolhemos exercer o amor, precisamos dedicar tempo e atenção, compartilhando com outras pessoas negras conhecidas ou não. Tendo em vista a série de violências que nos atravessam, expressar o amor entre nós mesmas é um ponto importante para contribuir na transformação da sociedade em que vivemos. “Quando nós, mulheres negras, experimentamos a força transformadora do amor em nossas vidas, assumimos atitudes capazes de alterar completamente as estruturas sociais existentes. Assim poderemos acumular forças para enfrentar o genocídio que mata diariamente tantos homens, mulheres e crianças negras. Quando amamos é possível enxergar o passado com outros olhos; é possível transformar o presente e sonhar o futuro. Esse é o poder do amor. O amor “cura”.” (bell hooks)

Se você prestar atenção, verá que as mulheres negras próximas a você estão se organizando e propositalmente ou não construindo redes de proteção e afetividade. Seja as mulheres da sua família que cuidam uma das crias das outras, grupos que discutem pautas específicas, associações de mulheres, seu grupo de amigas, as mulheres do seu bairro, movimentos sociais e projetos organizados por mulheres negras etc. Existem muitas formas de organizações que atuam nessa perspectiva e que contribuem para o revigoramento delas. As mulheres negras da Irmandade da Boa Morte de Cachoeira – BA, são um dos principais e primeiros exemplos de organização de mulheres negras que para além da religiosidade também é uma organização que se mostra essencialmente afetiva e que possibilita uma aproximação com a nossa ancestralidade.

Trazendo um pouco da minha trajetória, minha família é formada majoritariamente por mulheres negras que estão constantemente se organizando para impulsionar uma às outras. Para que eu entrasse na universidade, concluísse o curso e atualmente esteja cursando a pós-graduação contei e conto com o apoio dessas mulheres, com o acolhimento das minhas tias em suas casas, o apoio das minhas primas , irmãs e amigas nos meus projetos. Nos esforços da minha mãe para me manter na universidade  e na confiança de todas elas nas minhas potencialidades. Imagino que dentro dos ciclos de relação consiga perceber mulheres que estão dispostas em levantar umas às outras. Assim como nos diz Angela Davis “Quando uma mulher negra se movimenta toda a estrutura da sociedade se movimenta com ela”.

Os espaços de troca são espaços de amor. Minha presença em espaços que discutem as especificidades de mulheres negras sejam em qualquer âmbito, sempre são espaços de acolhimento. Ouvir o depoimento de outras mulheres e me enxergar nelas faz pensar novas possibilidades, de juntas buscarmos estratégias de embate as variadas vertentes das opressões que nos atravessam. Atualmente além do PBF, participo de outros coletivos de mulheres negras e busco estar em espaços organizados pelas minhas irmãs, pois é assim que me sinto em meio a outras mulheres negras, mesmo que eu as não conheça, consigo me enxergar na figura delas, mais do que isso busco aprender com outras mulheres negras a exercer esse aprendizado de amor com as pessoas que eu convivo.

No texto “As mulheres negras estão por conta própria: a importância de fortalecer o movimento feminista negro no Brasil”,  escrito por Lara Carina, umas das nossas colunistas – aborda a importância da união de mulheres negras para o enfrentamento das opressões. “Os nossos passos, mulheres negras, vem de longe e continuaremos a nossa caminhada, em luta permanente, até conquistarmos uma sociedade justa para todas e todos. Ao lado de mulheres negras reconhecendo e superando as opressões que fomos, socialmente, educadas a reproduzir umas com as outras, encontrei um espaço de conforto e de construção de estratégias para a nossa sobrevivência, sustentado nos princípios da irmandade e da solidariedade negra.” 

Nesse sentido afirmar que o afeto é revolucionário, se refere à importância da construção dessas redes de afeto, partindo da perspectiva que esses espaços proporcionam outras vivências para mulheres negras, o exercício do autocuidado,  a troca de experiências e as possibilidades de ascensão social. A percepção das nossas semelhanças servem para refletirmos sobre as opressões que atravessam as nossas vidas e que trazem diversas cargas que podem ser amenizadas em coletivo. Para nós a palavra é irmandade. 

Camila Vieira

Camila Vieira é natural de Cachoeira-BA, cidade do Recôncavo Baiano. Formada em Serviço Social pela Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB), Mila como é chamada pelas colegas de equipe, já foi coordenadora geral do Centro Acadêmico de Serviço Social Marielle Franco (CASSMAF) e atua como social media no PBF.
“Reconheço a importância de espaços como este, que pretendem dar voz a nós mulheres negras, tratando das nossas vivências e travando as nossas lutas, e mais importante: levando informações para outras mulheres.” (Camila)

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