NADA QUE FORTES DOSES DE TAMBORES NÃO RESOLVAM

Colagens por: I’sis Almeida

O Brasil foi construído por corporeidades negras e tem a dança como uma das maiores manifestações de cultura popular. Contudo, a sociedade brasileira ainda não reconhece nossas práticas, as reduzindo somente como danças eróticas. A imagem construída sobre o corpo da mulher negra está muitas vezes relacionada a uma matéria exótica. Resquícios  do machismo, e do sexismo que, com o passar dos anos foram nutridos pela discriminação racial. Por isso, vejo nas danças afro um instrumento para alcançar o autoconhecimento, a autoestima, a autonomia do corpo e do existir, e um espaço de dignidade para chegar à liberdade.

É comum que por ser um lugar de prevalência da espontaneidade, pensem que nas danças de matrizes africanas, o corpo apenas se joga no espaço com indisciplina. No entanto, elas não lidam de forma rígida com corpo, assim como muitas danças eurocêntricas nem são pautadas de maneira metódica, mas buscam a todo tempo entender como todas as partes do nosso corpo se integram e exprimem suas individualidades em conjunto . Desse modo, nossas danças têm como característica fundamental a imposição de energia que só é alcançada quando há uma inteira entrega corporal alcançada por meio da liberdade com organização e consciência.

É importante, antes de tudo, que entendamos que o movimento, a habilidade de dançar não é inata – algo que nasce conosco – mas sim, aprendida, compartilhada. Uma fala comum e preconceituosa: “todo negro sabe sambar” reforça um estereótipo e nos coloca em um lugar de “menos negra” caso os movimentos esperados não nos contemple. Logo, pode-se enxergar nas danças de matrizes africanas um espaço de redefinição identitária uma vez que por meio delas podemos conhecer nossa história, nossa cultura e nos reconhecer verdadeiramente negras sem pré definições.

Em muitas academias de dança, o que é majoritariamente oferecido para nós desde a infância são modalidades onde nossas feições negras – corpo, cabelo e pele – não são aceitos. No balé, por exemplo, “você tem pernas muito grossas”, “a bunda é grande demais”, “cabelo é crespo e black? Só pode coque!”, há padrões brancos de beleza que nos inferiorizam e nos deixam marcas capazes de ficar para vida inteira, e que consequentemente nos causam baixa autoestima. Já nas danças de matrizes africanas o nosso corpo é respeitado, e acima de tudo, exaltado uma vez que não é tido como objeto, mas como sujeito que funda nossa história e é base existencial da cultura que entende o feminino como sagrado.

As danças afros são plurais em constituição, referência e contexto cultural, assim como é o continente africano e a experiência do negro no Brasil, mas o que geralmente tem em comum são as realizações em círculos ou em fileiras. Como também a preferência pelas danças de pares e o costume de dançar descalços, sendo esse um ato de respeito à terra, pois na visão africana pertencemos à terra assim como nossos ancestrais. Logo, são espaços que respeitam as vivências corporais dos seus praticantes, além de ensinar a aceitar o seu corpo e o corpo do outro.

Nossas motivações para dançar são formas de contar histórias, histórias que muitas de nós perdemos no processo diaspórico que nos permeia. Elas têm temáticas plurais como a fertilidade, o nascimento, o plantio, a colheita, a saúde e até a morte. Dessa maneira, podemos ver no contato e (re) encontro com a dança de matriz africana uma forma de resgatar e manter viva nossa cultura como também um ato político diante de um sistema que tenta a todo tempo nos embranquecer.

Esse imaginário colonizador que tem o corpo branco como um modelo de civilização – por exemplo, nas experiências europeias eles são munidos de língua, já os povos africanos munidos de dialeto – nos deixou valores depreciativos e nos colocou bloqueios em relação ao corpo desde a maneira como nós mulheres o vemos até no modo tímido como nos mexemos. Por esse motivo para colocar nosso corpo em movimento é necessário romper com as amarras do racismo que estão  na nossa mente.

Lembro até hoje que foi só quando participei do teatro musical negro em 2018 que consegui entrar em processo de cura e de resgate da minha autoestima. No processo seletivo da audição uma das avaliações era a dança, naquele dia meu pai foi comigo e a cada novo passo que eu tinha que reproduzir ele me dava um toque ”solta o corpo!”. Eu tinha em mim o costume do balé, e o desespero batia porque eu não conseguia acompanhar o ritmo do tambor. Tentei mais uma vez, com o corpo menos enrijecido, mas ainda assim eu não acompanhava os passos. Desisti.

“Você que saiu aí. Você mesma! Pode voltar. Aqui ninguém desiste! Se quiser desmaiar, desmaia aqui em cima, mais aqui ninguém desiste não, viu? É isso que eles querem lá fora”. Essas palavras que foram ditas por Nara Couto me marcaram. Fui notada e naquele dia  eu realmente aprendi a ter coragem e entendi que eu estava ali para resgatar o que foi perdido e tirado de mim, de nós. Foi ali também que eu aprendi que deveria lutar pelo meu espaço, mas também dar espaço para quem está ao meu lado, trazê-lo para frente, junto, e foi isso que Nara e outras mulheres fizeram por mim ali.

Lembro também de Juciara Áwo que em meio a um intervalo das nossas aulas me chamou na prosa e disse: “Tá vendo essa linha na sua barriga? É porque você anda curvada. Você é bonita, estica esse corpo. Isso é muito comum em nós mulheres pretas, mas não fique mais sim, entenda que você é bonita”. Mais uma fala que me marcou e que me fez lembrar outra fala de Nara: “Somos mulheres pretas e mulheres pretas em qualquer escala de luta, vitória ou sucesso que chegue, precisa de outras mulheres pretas ali, ao redor dela, incentivando, impulsionando, colocando ela para cima”.

Por  conta disso, passei a ver nas danças afro um lugar para assumirmos nosso corpo negro, desenvolver nossa corporeidade, acharmos nossa autonomia, rompermos com o sentimento de inferioridade e recuperar a autoestima. Como também de conhecermos nossa história e chegar à nossa liberdade enquanto mulheres negras. Nesse sentido, sigo juntando palavras*, catando meus cacos espalhados no tempo, compondo minha alma em retalhos momentos. Revendo minha língua aqui, minha mente ali, resgato reis e rainhas. Hoje, percebo minha dança ainda calcificada, meu corpo um pouco petrificado, mas certa de que não há nada que fortes doses de tambores não resolvam.

Parafraseando a poesia “Juntando palavras” de Cizinho Afreeka. Por fim, indico “Danças Africanas e suas diásporas no Brasil – Luciane Ramos” – Disponível no YouTube – a quem devo a inspiração para o processo de escrita.

Agradecimento ao Ballet Kotteban, que nos cedeu as imagens para ilustrar o artigo

Glória Greice

Glória Greice, também conhecida como Glorete é carioca da gema e atualmente estudante de nutrição na UNIRIO. Ama cantar, mas nunca sonhou em ser cantora, até o momento em que descobriu como usar a sua voz. Ela considera que cantar e escrever sejam dons dados por seus ancestrais que tiveram as vozes roubadas. Para Glória, a voz é uma importante arma de combate ao racismo e ela a utiliza em todos os espaços que ocupa. No portal, atua como colunista.
“Considero o portal o lugar certo para alcançar pessoas. Lutar numa guerra sozinho é cansativo. Poder lutar num coletivo que tem o mesmo objetivo que o seu é uma benção!” (Glória)

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