ME RECUSO A CARREGAR O NOME DO OPRESSOR

Ilustração por: Andréia Reis

“Não se compra um escravo. Você tem que produzir um escravo.” Essa foi a fala de um dos personagens da minissérie ‘Raízes’, de 1977, baseada no livro de Alex Haley. Apesar de ter sido empregada na ficção, ainda explica a realidade. Nossos ancestrais quando foram raptados da África  passaram por um processo forçado de apagamento de suas identidades étnicas.

Tal feito estava ligado a uma “lavagem cerebral”, na qual tinham que se esquecer dos países que vieram, da língua que falavam quando criança e de seus costumes. Logo, ao serem comprados recebiam um novo nome  e sobrenome para a identificação de seus respectivos donos.

“Era só mais um Silva que a estrela não brilha”. Esse é o verso da música de Moisés Osmar da Silva, o carioca MC Bob Rum, o utilizo aqui como exemplo, porque dentro dessas “simples” palavras encontramos a denúncia do descaso de um Estado genocida de corpos pretos que são identificados por um sobrenome.

Você em algum momento parou para pesquisar a origem de cada um dos seus sobrenomes? Partiremos desta canção ‘Silva’, de origem portuguesa. Agora pensa, quem da sua família veio de Portugal? Provavelmente, você não encontrou ninguém na sua árvore genealógica, assim como eu.

Lembro até hoje como me atentei para querer saber minha origem familiar. Eu estava no ensino médio, e um professor ao fazer a chamada perguntou para meus colegas de classe de onde vinham seus sobrenomes tão diferentes “Bertthoux”, “Cataldo”, por exemplo.

Todos sabiam o país e de qual parente herdaram o nome. A pergunta não foi feita para mim, mas guardei aquele momento. Já em outra aula, outro professor ao ler meu nome ‘Greice’, perguntou ‘Glória, qual o seu nome todo?’ Falei um a um ‘Costa’, ‘Gomes’, ‘Silva’, no final ele fez cara de desdém. Foi ali que eu decidi pesquisar cada sobrenome e me deparei com três Portugueses.

Uma matéria publicada pela ESPN com o título “Rio-2016 inverte ‘Era só mais um Silva’, conhecido como o sobrenome mais popular do país domina quadro de medalhas”, enegrece meu texto e nos revela o estigma que os sobrenomes populares carregavam e ainda carregam — por isso a expressão do meu professor — Popular é definido como algo pertencente às pessoas simples, de camadas mais pobres.

Pobreza no imaginário de muitos está relacionada, principalmente, às pessoas negras. As palavras “só mais um”, nos deixou, também, a evidência de que há vários Silvas passando pelos mesmos problemas. A Cláudia Ferreira era da Silva, Douglas Rafael (DG) também, Edilson era dos Santos e da Silva. Evaldo Rosa também era dos Santos. O Amarildo era de Souza.

O povo preto brasileiro carrega um fardo absurdo na sua caminhada em diáspora e perceber que esse peso também é marcado com sobrenomes me gera frustração e nos direcionam para uma memória de dor. Contudo, acredito que sem memória não se compreende a verdade, e sem ela, não se produz justiça.

Entender isso é perceber que a tática dos colonizadores para negação da autonomia dos nossos antepassados não foi bem sucedida. Isso porque compreendo que a ancestralidade me levou a lutar pela busca da minha memória, descobrir  e registrá-la para mais pessoas.

Ao olhar para alguns nomes conhecidos no Brasil como destaque pelo esporte, por exemplo, Anderson Silva, Daiane dos Santos, Diogo Silva, Robson Caetano da Silva e tantos outros negros percebo uma forma pela qual nossos ancestrais são honrados e tiveram justiça, pois, apesar do esforço para lhes apagarem, se tornaram algo muito melhor do que esse país racista e genocida quis fazer deles.

Isso através desses nomes citados que sem perceber ressignificaram seus sobrenomes, e de nós, jovens negros e negras que temos ocupado espaços que antes não se via nossos corpos vivos, subvertendo as estatísticas de sermos mais um.

Depois de todos entendimento num simples ato de assinar meu nome, perdi de alguma forma minha autonomia, gritei para mim, recusei a carregar o nome do opressor. Para fazer isso, me inspirei em Kunta Kinte, personagem principal da série que citei logo no início.

Kunta me ensinou que o único nome que posso aceitar é o nome dado pelos meus pais, como também que eles — os colonizadores — poderiam até dominar seu corpo, mas nunca poderia deixar que dominassem a sua mente. Logo, assino o nome da minha certidão de nascimento por questões burocráticas, mas consciente da minha história, da onde eu realmente vim e de quem sou.

Assim como Kunta que depois de tanto ser chicoteado teve que se dizer Tobi Waller para não ser morto. Guardo a fala do Violinista amigo de Kunta na série “Não importa como o mestre chama você, mantenha seu verdadeiro nome por dentro”.

Tenho amigos que também se recusaram a carregar o nome do opressor, tomaram outra escolha. Assim como Malcom X que entendeu que ‘Little’ era seu nome de escravo e adotou o X como seu nome africano e de um homem livre muitos também adotaram outro nome para se reafricanizar.

Nos ressignificar e reafricanizar é para mim uma estratégia que nossos ancestrais nos deram para conseguirmos chegar até aqui e honrá-los. Te convido a tomar posse de sua autonomia e buscar a verdade sobre sua história. Recuse a carregar o nome do opressor.

Glória Greice

Glória Greice, também conhecida como Glorete é carioca da gema e atualmente estudante de nutrição na UNIRIO. Ama cantar, mas nunca sonhou em ser cantora, até o momento em que descobriu como usar a sua voz. Ela considera que cantar e escrever sejam dons dados por seus ancestrais que tiveram as vozes roubadas. Para Glória, a voz é uma importante arma de combate ao racismo e ela a utiliza em todos os espaços que ocupa. No portal, atua como colunista.
“Considero o portal o lugar certo para alcançar pessoas. Lutar numa guerra sozinho é cansativo. Poder lutar num coletivo que tem o mesmo objetivo que o seu é uma benção!” (Glória)

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