Kwanzaa: a comemoração dos princípios e valores que podemos passar aos nossos

Ilustração por Giulia Estrela

É certo que a colonização deixou muitas marcas em nosso povo, principalmente em nossa mente, nos distanciamos muito dos valores africanos muitas vezes por desconhecer tudo que África tem a nos passar de incrível. No Brasil a primeira religião eurocentrada, cristã, nos manteve com pensamentos aprisionados, não pela filosofia pregada, mas pela forma como a doutrina foi transmitida aos negros escravizados.

O clero europeu teve papel importante para a expansão da colonização nas Américas, apoiava as grandes navegações para humanizar novos povos e catequizar os nativos das colônias. A companhia de Jesus se instalou aqui com o propósito principal de evangelizar os índios e, manter os negros submissos aos senhores de escravos. Ainda que a população negra, até então africana, tivesse seus valores e cultos, não podiam os realizar, pois, eram proibidos por seus colonos. Os negros eram considerados como indignos, sem almas, que deveriam trabalhar sem piedade e depois da morte, talvez, seriam recompensados.

Os cultos católicos, mais conhecidos como missas, realizadas nas fazendas pelos senhores de engenho, faziam parte dos raros momentos que os negros tinham paz, onde deveriam agradecer pela “oportunidade”, ainda que não conhecessem ou acreditassem no Deus cristão. Durante um longo tempo, negros cultuavam as estátuas santas católicas para disfarçar os cultos que, na verdade, estavam sendo feito para seus orixás.

O processo para os negros da diáspora na América do Norte foi semelhante, mas lá havia o fator apartheid, conhecido por leis Jim Crow. Legislações criadas para separar de forma declarada brancos e pretos, dando direitos a população branca e negando os mesmos a comunidade negra. Bairros e populações inteiras eram segregadas, bebedouros, escolas, ônibus, igrejas, tudo era separado conforme a cor da pele. Fator esse que se mantém nas igrejas até hoje.

Na década de 60 a segregação racial estourava nos Estados Unidos, os conflitos estavam agravados como nunca, então a Kwanza foi criada, um feriado pan-africano, com o ideal de valorizar costumes africanos e como maneira de ir além da apropriação que o capitalismo tinha feito do natal. É comemorado durante uma semana, começando no dia 26 de dezembro e terminando em 1 de janeiro, e em cada dia um valor é cultuado.

A Kwanza não cultua deus nenhum, ela surge com o intuito de demonstrar e enaltecer o que a vida com o povo negro tem de bom, e quais os valores que podemos acrescentar e repassar ao longo de nossas vidas. São eles: a união, a auto-determinação, a responsabilidade para com os trabalhos coletivos, a economia cooperativa, o propósito, a criatividade e a fé.

A celebração é composta por objetos que carregam simbologia e significados. Sete velas representam os sete princípios, uma esteira de palha simula a base e os fundamentos africanos, as comidas caracterizam o poder de colhermos o que cultivamos, os copos demonstram a união enquanto povo, os presentes equivalem à recompensa, as espigas de milho significam a importância da infância e o suporte que carrega as velas representam as origens, as raízes de um povo. Vale lembrar que em África as crianças são vistas como parte fundamental de um povo, sendo aquelas que carregam inocência, curiosidade e vontade de aprender.

O feriado da Kwanzaa defende que devemos nos apreciar, respeitar, acreditar em nós e em nosso povo, agir por nós e pelo coletivo, crescer junto e levantarmos uns aos outros. Visando cultivar a vontade de aprender e de criar, de transformar, de plantar para poder colher, e sempre fazer o melhor para os nossos e com os nossos.

Rosa Ylê

#JáPassouPorAqui: Rosa Ylê é outra colaboradora que não para com o cabelo de um só jeito, a sua marca é o bom humor, está sempre com o altral lá em cima! Formanda em Geografia, gosta de tratar as questões raciais nos âmbitos geográficos, espaço, território e lugar. No portal atua como colunista e pretende fortalecer junto com as outras colaboradoras do portal o hábito de compartilhar a própria escrita.
“Para mim é uma forma de nos levar para frente, e me impulsionar a escrever e a compartilhar tudo o que penso enquanto mulher negra com minhas semelhantes.” (Rosa)

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