Identidade pan-africanista no Brasil: diáspora, mulherismo e vivências

Ilustração por Tainá Esquível

A juventude negra, sobretudo no Brasil, encontra-se em um constante processo de mudanças do seu modo de ser, seja pelos frequentes estímulos dos conteúdos da mídia ou por diversos questionamentos que surgem no seu processo de afirmação identitária. Simplificar essas questões é um desafio e tanto, por isso apresento o ponto de vista de uma teoria africana.

Uma das possibilidades de reconhecimento é a adoção do pan-africanismo. Mas o que é isso? A teoria pan-africanista tem como objetivo central nos fazer perceber que “temos nossas próprias referências e podemos empreender uma luta de libertação com base nas experiências africanas”. Dessa forma, propõe o entendimento de que toda pessoa negra, dentro e fora da África, são africanas, afinal suas raízes ancestrais vem de lá, além de utilizar dos ensinamentos sejam eles filosóficos ou ancestrais, em todos os âmbitos da vida, desde a forma de se alimentar até a forma de relacionamento com a comunidade.

Pensando não só as faces do racismo, mas também uma visão afrocêntrica, surge o Mulherismo Africana. Ele tem como característica principal pensar as mulheres negras sejam elas de África ou da diáspora – que é o caso do Brasil -, como lideranças na reconstrução da integridade cultural do seu povo, defendendo questões como harmonia, equilíbrio, verdade e reciprocidade. As experiências de pessoas que adotaram essas visões na sua vida e decidiram compartilhá-las são diversas, estão presentes até no campo educacional. E por isso, reuni mulheres que toparam falar um pouco de suas vivências na perspectiva vinda do pan-africanismo.

Luanda Nascimento (Maat) tem 35 anos, reside no Rio de Janeiro, é cientista social e pesquisadora independente de Estudos Africana. Ela explica que o que a fez adotar o pan-africanismo foi “buscar seguir em vida cada vez mais a cosmovisão ancestral africana e seu modo de ser”. Além de relatar as suas posições, Maat fala da importância de Marcus Mosiah Garvey, jamaicano que se radicou nos EUA e fundou no início do século XX a organização UNIA que reunia autonomamente milhões de negros.

“Eu gosto de sempre falar de Garvey quando falo do pan-africanismo porque ele é quase sempre (como a maioria das grandes personalidades negras) deturpado como um lunático que pregava o retorno físico à África no lugar de se falar de toda esta capacidade de organização e gestão de negócios e movimento que ele tinha”.

Emily da Penha (Makeda Ayana) tem 19 anos, reside no Rio de Janeiro, é educadora e tem utilizado o pan-africanismo como guia da sua vida e das suas aulas. Ela diz que “retornar à escola em uma posição de educadora, falando sobre África, aplicando a pedagogia do Molefi Kete Asante está sendo “uma das experiências mais desafiadoras da minha vida”, pois o contato das crianças, público ao qual ela se direciona inicialmente precisou quebrar algumas barreiras.

“Oferecer a experiência de poder gestar a própria educação é algo extremamente difícil, mas aos poucos estamos construindo essa emancipação com eles, há aqueles que diante de assuntos mais sérios fazem piadas, tentando disfarçar o sentimento que vem quando falamos a palavra “racismo”, por exemplo, sentimentos que também são meus e não consigo explicar porque a linguagem do colonizador não dá conta das minhas emoções. Não dá para delimitar uma reação geral dos pequenos, cada um com seu Orí, seus caminhos, que os fazem responder de uma forma única ao que está sendo proposto”.

Acerca de qual tem sido as mudanças notadas por ela, na identidade e no posicionamento das crianças, Makeda também comenta suas vivências em salas de aula e algumas percepções que teve com alunos e alunas, desde a temáticas diferentes e a abertura para assuntos interligados com a cultura africana.

“Cada dia é um dia, assuntos como o da terceira aula que foi Esù, o movimento, a vida e seus significados, criaram um distanciamento de alunos cristãos que antes eram muito interessados. Uma aluna cristã se fechou para nós depois dessa aula, já outros começaram a se interessar por nós parecermos a cada dia mais diferente do que eles estão acostumados. A recepção foi ótima, todo mundo cheio de questionamentos e agora a gente já consegue chegar neles de uma forma que pareça familiar”.

É através do conhecimento de novos pontos de vistas e posicionamentos que podemos modificar ou acrescentar perspectivas a nossa identidade. A teoria pan-africanista, seus conceitos, celebrações e variadas vertentes, trazem a chance de recriarmos uma conexão com nossa ancestralidade e raiz africana. Essa é uma das maiores preciosidades que podemos cultivar.

Brenda Cruz

Brenda Cruz, é estudante de jornalismo da Universidade Jorge Amado e cria da Sussuarana, bairro do Subúrbio Ferroviário de Salvador. Ativista de causas com recorte em gênero e raça, é também colaboradora do Desabafo Social e integrante do Coletivo Mamilos Prateados, onde produz rodas de conversas e palestras sobre gênero, raça e sexualidade em escolas públicas. No PBF, atua como colunista.
“É seguir trilhando caminhos marcados por muitas outras que nos antecederam, com honra e responsabilidade. É manter aberto o diálogo sobre todas as problemáticas que perpassam sobre nós.” (Brenda Cruz)

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