Há cores na resistência: a luta LBT+ em tempos de retrocesso

Ilustração por Giulia Estrela

Não é novidade que lésbicas, gays, bissexuais, transexuais e travestis sofrem diariamente por suas orientações sexuais e identidades de gênero. No Brasil, há muitos anos, já se reconhece o número expressivo de mortes e violências contra o público LGBT+. Somos líder mundial no ranking de mortes dessa população. Está aí um ponto forte na campanha eleitoral do atual presidente de extrema-direita, militarista e que expressa uma perspectiva homofóbica, cristã e opressora.

As expectativas que boa parte do eleitorado do presidente tem sobre o governo, estão relacionadas ao extermínio da impureza, promiscuidade e erro que as lideranças cristãs criaram e fortaleceram a partir do ideal de família tradicional. Atualmente, ideia fortemente compartilhada pelas lideranças neopentecostais. Crimes violentos disseminaram o medo durante  toda a campanha. Pessoas deixaram de expressar sua orientação e identidade de gênero nas ruas, mudando de roupas, evitando adesivos, retirando adereços como cílios e suas unhas e, até mesmo, houveram aqueles que desistiram de expressar publicamente o amor por seu companheiro(a).

O medo passou a fazer parte do coração de um grupo que, sofrendo desde o seu reconhecimento individual e coletivo, passou a ver que aqueles que vedaram a sua lgbtfobia tinham agora um líder que permitia não só declarações de ódio, mas, principalmente, segregação, humilhação pública e uma série de violências verbais e físicas como práticas de sua campanha. Particularmente, encarei um mundo cinza durante as eleições, amparei amigos que estavam despedaçados por terem que lutar para ser quem são, por terem que explicar que ser quem você é não deveria ser motivo para morrer.  

Toda a campanha me fez refletir sobre meu lugar no mundo, assim como o espaço de cada pessoa que amo e das que alguém carinhosamente tem em sua vida, mesmo as que não conheço. É uma tarefa difícil perceber que pessoas que estiveram na sua caminhada não têm empatia pela sobrevivência de outro ser humano. Não está no horizonte de parcela significativa o amor ao outro, tampouco importa muito se alguém estiver em risco nesses quatro anos, de maneira muito mais nítida.

A ligação do meu pai, após o resultado do segundo turno, traduziu o temor pela minha existência. O pedido para que eu retornasse logo para casa, viva, segura e acompanhada, explicava que ele entendia o que estava acontecendo. Pela primeira vez, em uma eleição, meu pai acostumado com a filha desprendida, temia pela minha vida e pegava o telefone para dizer isso. Na semana inteira, esse foi o relato de várias pessoas com quem estive. Mães, pais, irmãos, colegas cuidadosamente perguntando sobre a nossa localização. Não sei se você já pensou sobre isso ou até que ponto já refletiu como esse conjunto de acontecimentos nos lembra um passado.

Sabemos que o Brasil foi regido e orientado pela violência, já que é um país racista e conduzido por padrões colonialistas. Aqui ainda restam os resquícios de todos os anos de escravidão, o racismo está presente nas ações do Estado, das instituições e dos cidadãos.

Também sabemos que as mulheres negras LBT+ sofrerão mais com as medidas que já chegaram e as que estão por vir. E, por que as mulheres LBT+ sofrerão mais? Explico: nosso corpo é político. Isso significa que, quando você, mulher negra, sai às ruas, não está sendo só identificada por ser mulher ou apenas negra. Você é resultado dos marcadores sociais que a constituem. Então quando as políticas contra negros, contra mulheres e contra LGBT+ forem produzidas, elas infelizmente te atingirão três ou mais vezes. Nada disso se separa quando medidas opressoras e inteiras são pensadas. Nada disso sai de você. É por isso que,  sem pensar muito bem quando pegou o celular, acredito que meu pai sentiu o significado do que me forma. Talvez, não inteiramente, mas sentiu. A ligação e as palavras dele me disseram que se eu não chegasse bem em casa, o que quer que acontecesse comigo, seria resultado de quem sou.

Lembra quando vocês aprenderam interseção na escola, em matemática? Um círculo unido a outro, que poderia se unir a outro e um meio que amarrava todos? Você, mulher, negra, LBT+, pobre, está no meio deles. Os círculos são seus marcadores. Quanto mais marcadores, mais círculos, quanto mais círculos, mais você será atingida nesse governo que desrespeita os direitos humanos e, nega a existência e visibilidade de pessoas que estão e são diferentes que eles dizem que é normal, que é certo. Quem define o que é certo? A quem foi dado o direito de decidir sobre o que você é senão você? Antes era do senhor de escravos, um homem branco, opressor, preconceituoso, que não permitia que outras pessoas vivessem livremente e sem dor as suas experiências. Agora, ele é o presidente, que parece muito uma versão atualizada do senhor de engenho branco e líder que fazia de corpos violados seu projeto de poder e matava não só física, mas simbolicamente para dar continuidade a seus ideais, sobretudo econômicos.

O que temos que pensar é: nessa fazenda chamada Brasil, com um novo senhor de engenho à postos, onde se mata LGBT’s como se bebe um copo de água no verão de 2019, como reagimos? Talvez, essa seja uma pergunta ainda difícil de ser completamente respondida, mas traz a necessidade de começarmos a lembrar quem somos e como podemos, sozinhas ou não, trilhar a nossa estrada e permanência.

Com toda essa ofensiva, é importante que nossas raízes sejam preservadas e estratégias traçadas. Leiam, se encharquem de informações e conhecimento, conversem, planejem, escrevam. Em primeiro momento, sejam como esponjas, absorvam, se escutem, pensem nas outras e em você. Se necessário, preserve-se. Depois devolva tudo isso quando puder. Assim, ninguém para quem você é. Não haverá como. E, seguindo sendo você, não impedirá outras pessoas de serem. Essa é a maneira como tenho pensado esse meu primeiro ano. Dividindo, ouvindo, sendo paciente com meus limites, sobretudo não esquecendo que a vida de outras pessoas e a minha vida depende de que eu e você não ousemos desistir. Essa é a responsabilidade coletiva para esses próximos quatro anos.   

É claro que essa enxurrada de políticas contra nós nos cansarão ainda mais. Mas, é impossível esquecer que outras mulheres negras e LBT+ resistiram e lutaram para construir um mundo menos perverso.

Mudanças não surgiram do nada. Elas conquistaram avanços e fizeram com que nos sentíssemos mais fortalecidas. Esse é um legado ainda sendo escrito em um livro onde as vivências dizem mais sobre o mundo do que imaginamos. Tudo isso me lembra que a clandestinidade não é a melhor alternativa. Quanto mais nós nos escondermos, mais sairemos de cena, mais apagadas serão as nossas memórias, as nossas vontades, as nossas experiências. O que já veio e está por vir, com certeza, muda o curso de nossas vidas, porém, a disseminação do ódio é estratégia de um sistema feito para nos frear. O terror é estratégia, a organização é a saída.

Pensar em como potencializar sua existência em meio a quebra e retirada de direitos é resistência. Lutem para existirem nas universidades. Se não, busquem conhecimento. Estarmos vivas na memória do nosso povo é mais importante que esconder quem você é. Não permita que o arco-íris se apague. Pare quando sentir o peso, mas volte a colorir o Brasil quando estiver mais forte.

Andreza Santos

JáPassouPorAqui: Andreza Santos, a rasta (atualmente) porque essa aí muda de cabelo toda hora, é formada no Bacharelado Interdisciplinar em Humanidades na Universidade Federal da Bahia (UFBA) e graduanda de Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela mesma insituição. Escrevendo nas horas vagas, Deza compartilhou suas reflexões atuando como colunista do portal.
“Falar para os nossos(as), é uma luta constante, permanente, que diz sobre um caminho que precisa ser publicizado, visto e compartilhado.” (Andreza)

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *