Guerreiras Anônimas das águas: entendendo a nossa ancestralidade pelas mulheres lavadeiras

Colagem: I’sis Almeida

Tendo como inspiração e base o livro Água de Barrela de Eliana Cruz

Com lugares profissionais historicamente muito bem marcados desde a escravidão, a existência das mulheres negras sempre foi cercada por limites estruturais de raça e de gênero que dificultam, mas não impedem o nosso crescimento  e autonomia. Entretanto, mesmo colocadas em atividades visto como menores, o cotidiano das nossas sempre foi marcado com práticas de resistências que devem ser sempre resgatadas tanto na memória quanto como exemplo de luta contra o sistema que nos cerca.  Entre essas diversidades de mulheres negras, aqui vamos conhecer as grandes mulheres chamadas de lavadeiras. 

Para se construir uma identidade, é necessário se conhecer a história do seu povo em todos os aspectos de existências. Essa também é uma forma de conhecermos, enquanto jovens, como as mulheres negras praticaram e  praticam a ancestralidade. No livro chamado Água de Barrela da escritora e jornalista Eliana Cruz conta-se a história da sua família misturando personagens fictícios com reais. Dentre os silenciamentos que a obra rompe, se destaca as mulheres lavadeiras, uma entre múltiplas profissões que historicamente são comuns em famílias negras. 

As águas são amigas próximas da nossa história. Foi alimento, a cura e afago. E a partir dela que surgem as lavadeiras. Essa atividade é antiga, já era praticada em qualquer comunidade que se tinha o que lavar. Mas quando os africanos foram trazidos para o Brasil, essa atividade ganhou um caráter de um caminho de se seguir com o uso da força ou extrema necessidade de ter uma renda.

As lavadeiras aqui foram grande parte mulheres negras escravizadas que tinham que lavar todas as roupas de cama e vestes da casa grande. O trabalho se dava em carregar os pesados cestos de roupas até a beira do rio mais próximo e esfregar nas pedras para tirar toda a sujeira. As roupas brancas deixavam o trabalho ainda mais difícil, deveriam ser alvas. É disso que surge o nome do livro,  água de barrela era uma água com cinzas de madeiras que facilitavam esse trabalho. Nesse apego a brancura, dizia-se que os patrões queriam clarear não só as roupas, mas também as pessoas. No nosso contexto histórico, isso não é nenhuma mentira, já que, tudo que é ligado ao branco era sinônimo de bom. Tempos depois o Brasil iria de fato se empenhar para embranquecer a população.

Trabalhar para a população branca não é sinônimo de resistência, mas a forma com que essas mulheres lidam com as práticas de trabalho, o uso dado a ela e seus significados e ressignificações são lições das nossas ancestrais que podem ser aplicadas na nossa vida.

Sentar às margens do rio, executar o vai e vem das mãos era o momento só delas,  o momento de encontros de dois rios, das águas que descem das correntezas com as que caíam dos olhos. Um momento para conversar e cultuar a ancestralidade dos orixás. Como diz Conceição Evaristo.  “Águas de Mamãe Oxum! Rios Calmos, mas profundos e enganosos para quem contempla a vida apenas pela superfície. Sim, águas de Mamãe Oxum”.  

Mas lavar a roupa era também um trabalho coletivo. Porque as mulheres negras nunca estavam sós, juntamente com os homens negros a comunidade era e continua sendo a única forma de permanecer forte. A beira do rio também era palco de muitas conversas, risadas, planejamentos de revoltas e fugas. O rio era um lugar de muito conforto, estar próximo a natureza era essencial. Nesses locais entre uma enxugada e outra, entre os nossos se falava sobre os sonhos e as aspirações para o futuro. 

Não tenho a intenção de romantizar o trabalho pesado, árduo e sofrido que eram feitos pela população negra, mas sim, deixar escurecido que mesmo em condições desumanas, os nosso povo nunca perdeu sua humanidade, a capacidade de enxergar enquanto merecedores de uma condição melhor seja resinificando a sua realidade ou rompendo de uma vez com aquilo tudo. Com o fim da escravidão, a lavadeira continuou a ser importante para a sociedade já que os padrões  raciais não mudaram. Passado de geração e geração, o lavar e engomar se tornou a forma de sustento da população. Foi com essa prática, entre tantas outras, que se alimentou e educou os filhos. 

Um exemplo muito próximo a mim e a minha avó que foi uma lavadeira, lavava a ganho para as famílias ricas e também as próprias roupas da família nos rios e no interior dos manguezais quando os rios passavam pela seca, já que as casas não tinha água encanada, uma realidade dura. Fazendo referência a minha avó, minha mãe me contou que “os dez dedos  dela viviam com unheiros”, que são inflamações ao redor das unhas causadas por esse trabalho. São consequências frutos dos trabalhos exaustivos presentes nas histórias de mulheres negras, mas que na mesma intensidade temos o desejo de romper. Nossas histórias são complexas, mescladas de dores e alegrias. Minha avó conseguiu através do lavar e engomar criar todos os seus filhos e construir um patrimônio, em um momento que essa foi a única possibilidade. Sempre criamos as possibilidades. 

Todas essas histórias são de mulheres comuns, mas que se encaixam na categoria de super-heroínas. Diante de tantas mazelas, apenas com as mãos escuras e as roupas claras e pesadas, mudaram as nossas trajetórias de vida e transformaram o nosso futuro. São mais um exemplo vivo de que precisamos nos aproximar e ouvir as nossas ancestrais, seguindo seus passos e levando suas histórias para onde formos.

As lavadeiras ainda hoje são esse exemplo forte de mulheres que resistem. Entre quilombolas, ribeirinhas, são também as indígenas, são nossas avós, mães,  que descendem de mulheres que entendem a importância da natureza nas nossas vidas, fosse para alimentar a alma pelo sagrado ou o corpo, para se ligar ao sagrado ou  se tirar o que comer. Diante do cenário que vivemos com a destruição sistemática dos nossos territórios e a violência direcionada a nossas vidas, a sobrevivência das lavadeiras e de tantas outras formas de se viver, são motivadas por razões que o olho não consegue ver, mas que a ancestralidade nos ajuda a entender melhor e nos ligar diretamente a todas elas.

As águas são equilíbrio e força. Capazes de acalmar, mas também de causar transformações, assim como as mulheres negras. Nossas ancestrais desde África seguem o curso dessas águas para guiar seus passos, e nosso caminho enquanto jovens devem se deixar levar pela mesma corrente de resistência. Um pé nas raízes, nas águas, e outro no futuro que queremos construir. 

“Não queremos mais aquilo que embranquece a negra maneira de ser
Não queremos mais o lento e constante apagamento da cor de terra molhada suada, encantada…
Queremos os remendos dos panos, nas tramas dos anos sofridos, amados…
E, acima de tudo,
Apaixonadamente vividos”

Eliana Alves Cruz

Natália Alcântara

Baiana nascida na Ilha de Itaparica, Natália Alcântara morou nesse Brasilzão todo das deusas. Interessada pela vida e por conhecer de tudo e de todos, estuda história na Universidade do Estado da Bahia (UNEB). É professora de história e no PBF atua como colunista.

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