EM QUE CIDADE VOCÊ SE ENCAIXA?: a pipoca de Salvador e a democratização do carnaval de rua

Ilustração por: Giulia Estrela

Quando muitas pessoas pensam sobre o carnaval, vem a ideia de que se trata de uma festa em que todas e todos se divertem e cantam as canções do momento, sem nenhuma preocupação em mente. De fato, cair na folia, muitas vezes, causa esse efeito, uma vez que estamos ao lado de quem gostamos, tentando ser, apenas, felizes. No carnaval de Salvador, o povo ocupa as ruas massivamente. Em alguns instantes, não conseguimos colocar os pés no chão, mas seguimos o fluxo, levados pelo movimento dos corpos que se mexem ritmicamente, em completa harmonia. Pensando dessa forma, o carnaval de Salvador parece um verdadeiro mar de rosas. Só que não.

A folia na capital baiana é marcada por uma série de símbolos. Trio elétrico, blocos comandados por artistas conhecidos nacionalmente, camarotes lotados de pessoas ricas, famosas e a pipoca, a grande massa, em sua maioria, negra que subverte a lógica mercadológica e de segregação imposta pela iniciativa privada (sem a participação do poder público, ou seja, dos governos).

Na década de 90, quando explode a comercialização do carnaval, com o surgimento dos abadás e das cordas para separar o público pagante dos demais, a pipoca era o espaço ocupado por aquelas que não tinham dinheiro, mas que, ainda assim, não desistiam de curtir a folia. Marcada pelo “empurra-empurra”, a pipoca era, constantemente, associada à violência e, sem dúvidas, essa conclusão era um resultado do racismo enraizado nas estruturas e, consequentemente, nas práticas da sociedade brasileira, visto que as pessoas negras eram, e continuam sendo, as suas principais foliãs.

Esse ponto traz uma importante visão do carnaval soteropolitano. A divisão causada pelas cordas, separando as pessoas do bloco das que estão na pipoca, traz um retrato sobre a festa, derrubando a ideia de que todas e todos curtem o carnaval da mesma maneira. Tal questão evidencia a existência de duas cidades, inclusive, no momento de diversão: uma cidade branca, maquiada para os turistas, sustentada pelos privilégios e outra cidade negra, aquela que tentam esconder, mas que permanece na resistência, vítima das opressões.

Atualmente, seria natural pensar que o cenário se transformou por completo, mas não necessariamente. Os blocos pagos passaram por uma crise nos últimos anos e a grande parte do seu público migrou para os caríssimos camarotes. Por outro lado, tem-se uma ascensão dos blocos sem corda, patrocinados pela iniciativa privada, atraída pelo consumo do folião da pipoca, e pelo poder público. Essa ocupação das ruas pelo público da pipoca poderia levar à conclusão de que o carnaval de Salvador se tornou uma festa democrática de fato, mas, por uma série de fatores, percebe-se as marcas das segregações de raça e, de classe, escancaradas nas práticas carnavalescas.

Aproveitar os festejos de fevereiro com liberdade não está associado apenas ao fim das cordas. Sem dúvidas, a quebra dessa divisão é um elemento fundamental, porém, é necessário não refletir sobre essa questão isoladamente. As opressões existentes no Brasil, como é o caso do racismo, são responsáveis por essa segregação e, além disso, pelas inúmeras expressões de violência praticadas contra a população negra durante esse período. Não é raro ouvir relatos de jovens negros sobre a ação truculenta inexplicada e injustificável da Polícia Militar contra os seus corpos no momento da diversão. Por pouco ou nenhum motivo, a nossa juventude é enquadrada, agredida e punida por, simplesmente, estar gozando de um direito básico não garantido pelo poder público: o direito ao lazer.

Se existem graves empecilhos para curtir a folia quando se é um jovem negro, quando se é uma mulher negra brincando nas ruas, as violações são vivenciadas de maneira distinta e, muitas vezes, mais incisiva. Para início de conversa, nós, mulheres, em geral, ainda somos usadas como objetos que atraem homens ricos para a cidade. Os nossos corpos são hipersexualizados e explorados pelo mercado sexista que visa apenas o lucro, fortalecendo a desigualdade existente entre gêneros.

Para as mulheres negras, o cenário é, ainda mais, agressivo. Primeiro, dificilmente, estamos nos locais privilegiados da festa, ou seja, nos blocos pagos e nos camarotes, exceto quando ocupamos os postos de trabalho que mais sofrem humilhações. Segundo, quando estamos na pipoca, somos vítimas, para além da violência policial, do assédio por parte dos homens que, assim como nós, estão pulando na folia. O constante desrespeito contra as mulheres, resultante do sexismo institucionalizado e, socialmente, organizado nas ações culturais, configuram-se como obstáculos para a plena democracia da festa de carnaval nas ruas de Salvador.

O racismo está por trás da segregação que ainda persiste no carnaval da cidade mais negra fora da África. Apesar de as ruas estarem mais livres para ocupação do povo oriundo da capital baiana, uma vez que o público pagante é, em sua maioria, formado por turistas, as duas cidades permanecem. Aos negros, a rua e a violência racista. Aos brancos, os camarotes e o “all inclusive”. Nas ruas, racismo, sexismo, LGBT fobia e classismo. Nos camarotes, “os reis e as rainhas” que fecham os olhos para aqueles que garantem que o carnaval aconteça, através dos seus trabalhos.

Cair na falácia de que o carnaval é uma festa democrática, é ignorar as mazelas que possibilitam o acontecimento da festa atualmente. Obviamente que, apesar das incansáveis tentativas de criminalização e mercantilização das expressões negras na festa, percebe-se, nitidamente, que o povo negro permanece na resistência, seja na pipoca ou, seja nos blocos afros que celebram a ancestralidade, opondo-se à lógica comercial.

O crescimento da pipoca é um dos passos indispensáveis para que todas e todos possam se divertir, mas a democracia de fato, seja no direito ao lazer ou em outros direitos sociais garantidos pela Constituição Federal de 1988, demanda o firme combate a todas as formas de opressões que geram desigualdades sociais entre negros e brancos, entre mulheres e homens, entre LGBTs e heterossexuais. As grandes e ricas empresas privadas lucram com a violência contra esses segmentos da sociedade, pois, isso possibilita a sua manutenção ao longo do tempo. Resgatar a tradição do carnaval de rua, para protesto ao carnaval elitizado, celebrando a resistência dos povos tradicionais da capital baiana é o horizonte que o caminho em busca da democratização da folia deve trilhar.

Lara Carina Amorim

Lara Carina Amorim, a moça da Tia Nastácia Doces e Trufas (procure saber), desenvolve pesquisa sobre adolescentes negras em privação de liberdade. Escritora nas horas vagas, bacharela em Humanidades pela Universidade Federal da Bahia e graduanda em Estudos de Gênero e Diversidade pela mesma instituição, no Portal Black Fem, atua como editora-chefe e colunista do portal.
“Fomentar debates sobre a condição da mulher negra na sociedade contemporânea, trazendo situações do nosso cotidiano, embasado em intelectuais negras.” (Lara)

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