Cosmovisão africana & autoestima: como a filosofia kemética pode ajudar a entender a nossa existência no mundo

Ilustração por: Giulia Estrela

Esse artigo é a primeira experiência de escrita compartilhada do Portal. As autoras do texto são: Brenda Cruz e I’sis Almeida. 

A primeira vez que se ouve falar sobre filosofia africana, custa-se em acreditar que ela exista, no entanto, existem inúmeros estudiosos inclusive brasileiros(as) que empreendem o objetivo de fazer com que o pensamento africano e mais especificamente kemetiano seja conhecido e partilhado entre os povos africanos brasileiros.

Katiúscia Ribeiro é mestre em Filosofia e Ensino e Doutoranda em Filosofia no Programa de Pós Graduação de Filosofia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Em um vídeo publicado no dia 19 de setembro de 2018 no YouTube sobre cosmovisão africana, Ribeiro menciona que a cosmovisão em Kemet (antigo Egito) — e lembrem-se que o Egito faz parte da África —, é a apreensão de uma materialidade mítica, ou seja, a compreensão de que nossos corpos estão presentes naquilo que o mundo destacou como “realidade”, mas que também carregam consigo um senso mítico e este senso nos constrói.

Para exemplificar, ela cita o Axé, ou melhor dizendo, as religiões de matriz africana. O candomblé ou a Umbanda, por exemplo, são a experiência de uma cosmovisão africana vivida de modo concreto no Brasil. Também a capoeira que demarcava e demarca até os dias atuais as conexões entre o corpo e a mente.

Para nos aprofundarmos ao tema central desse artigo é necessário antes de tudo compreender a cosmovisão no seu sentido literal. No dicionário, cosmovisão significa: “maneira subjetiva de ver e entender o mundo; expressa as relações humanas, os papéis dos indivíduos e o seu próprio na sociedade assim como responde às questões filosóficas básicas como a finalidade da existência humana, vida após a morte,visão de mundo e etc.”

Agora pense sobre sua existência enquanto brasileira. Percebeu como nossas experiências atravessam-nos pelo modo de existir do ocidente? Sim, somos desde pequenas ensinadas a termos como modelo de existência e comportamento, o modo ocidental. Como já mencionamos no PBF, isso diz respeito à forma em como os nossos ancestrais foram trazidos do continente africano até as terras brasileiras.

Quem não tem contato com o Axé ou desconhece a existência da filosofia africana, por exemplo, terá mais dificuldade em chegar a um estado de reafirmação de sua existência de modo africano. É importante saber que o processo de reconstrução de nossa autoestima dentro de uma filosofia africana requer do(a) interessado(a) deixar de lado inúmeros conhecimentos aprendidos da cultura europeia que, por vezes, nos foram passados inclusive por nossos entes queridos como família e amigos.

Isso irá exigir fatalmente uma responsabilidade grande na leitura da produção intelectual de filósofos africanos, pan-africanistas, produções essas que, ainda hoje, são difíceis de serem encontradas e coragem para “matar” o ocidente dentro de você mesmo estando dentro dele, literalmente.

As dificuldades desse processo incluem para além da questão geográfica (o fato de empreender um modo de vida africano, sem estar em África), a dificuldade da prática. Deixar de assimilar, difundir e praticar conceitos ocidentais é uma tarefa e tanto.

Tomemos como exemplo o conceito de serenidade que no ocidente é tratado como aquele(a) que sofre, porém, se mantém calmo, que apanha, mas não apresenta “a outra face”. Um ditado popular que resume a ideia de que devemos não agir da mesma forma que outro, mostrando-nos sermos seres superiores.

É de certa forma, o ideal da humildade que nos foi ensinada. Humildade essa dentro dos costumes ocidentais que está ligada à passividade, ao reverenciamento da grandeza naquele que apresenta o que você não é ou tem. Para nós, descendentes de potentes criadores, poderosos, originários, reis e rainhas, precursores de tudo aquilo que foi criado não deve se instituir da mesma forma.

Nos terreiros e casas de axé, o ato de reverência ou mais conhecido como “bater cabeça”, é direcionado aos orixás e aos mais velhos, essa visão de humildade, a partir de uma “cosmovisão africana”, está no reconhecimento de que estes detêm uma superioridade moral e espiritual cultuados entre nosso povo e no entendimento de que não é o uso daquilo que não se tem no outro, mas no respeito ao conhecimento adquirido e compartilhado.

Agora, com certeza você deve estar se perguntando, qual a ligação entre esses pontos e a ideia de cosmovisão africana, não é? Contudo, para dar continuidade, é necessário relembrarmos que o antônimo da humildade é o orgulho. A forma que encontramos de ilustrar o ideal de orgulho, alinhado com a cosmovisão apresentada anteriormente está em uma fala do discurso mais conhecido, do honorável Marcus Garvey, um dos principais nomes do pensamento pan-africano, em que ele clama:

“De pé, raça poderosa!”, nessa frase, o comunicador, empresário e ativista político, aponta não só para a importância da articulação e organização da comunidade africana que vive no continente ou em diáspora, mas também, do orgulho ao pertencimento dessa raça, do resgate ao modo africano de existir, da honraria a potencialidade dos nossos mais velhos para a construção de uma autoestima alinhada na autonomia e retomada dos nossos próprios modos de viver e sentir o mundo.

Não há como ter plenamente autoestima sem o conhecimento sobre a nossa história, a verdadeira história!

I'sis Almeida

I'sis Almeida é uma baiana arretada! Possui formação técnica em Comunicação Visual pelo Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial, o SENAI e completou o primeiro curso de nível superior como Bacharela Interdisciplinar em Artes pela Universidade Federal da Bahia, a UFBA. Hoje ela está no segundo curso de nível superior, Comunicação Social com habilitação em Jornalismo através da mesma instituição de ensino. Não menos importante citar, I’sis é responsável pela idealização do portal como um veículo de comunicação e atua como uma das coordenadoras do portal.
“Acredito no trabalho coletivo e na possibilidade de através dele criarmos um novo futuro para adolescentes e jovens adultas negras. Estamos trabalhando com a faixa etária entre 12 a 29 anos mas nada impede que aqui, todas as mulheres negras se sintam representadas” . (I’sis)

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