Conterrânea Dona Dalva e seu Samba de Roda: a importância da ancestralidade

Ilustração: Tainá Esquivel

Quando soube que o tema desta edição era ancestralidade, rapidamente lembrei de minha terra pois como se diz na Bahia: “sou nascida e criada” em Cachoeira! Essa expressão geralmente é utilizada quando alguém tem muito orgulho do seu lugar de origem, assim como eu. Cachoeira é uma cidade do Recôncavo Baiano, localizada a margem esquerda do Rio Paraguaçu, vizinha da cidade de São Félix, que fica ao lado direito do Rio. As cidades são literalmente separadas e unidas por uma ponte.

Cachoeira é um território rico, cheia de histórias, lutas e conquistas que carregam memórias da resistência do povo afro-brasileiro. Dentre elas, destaco certamente o Samba de Roda, pois quando criança, recordo-me de ter aprendido cantigas de samba, porém, só mais tarde pude compreender como aquelas canções eram e continuam sendo ferramentas de preservação das minhas e meus ancestrais. 

O Samba de Roda surgiu no Séc XVII, na região do Recôncavo do Estado da Bahia, herança de danças e tradições culturais dos povos escravizados na região. Em 2005, a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) concedeu o título de patrimônio imaterial do Brasil ao Samba de Roda de Cachoeira. É também em minha cidade que nasceu uma das personagens mais ilustres do Samba no Brasil: Dalva Damiana de Freitas, ou simplesmente, Dona Dalva. 

Minha conterrânea nasceu em 27 de setembro de 1927. Assim como grande parte das mulheres nascidas em Cachoeira, tornou-se charuteira ainda na adolescência (ofício de pessoas que manipulam/fabricam, muitas as vezes à mão, o charuto). Junto a suas colegas de trabalho, em novembro de 1958 ela criou um Samba de Roda que passou a se apresentar em festas religiosas da região e assim nasceu o famoso Samba de Roda “Suerdick”, e anos depois o Grupo Mirim Flor do Dia, que desempenha um papel essencial na formação das e dos jovens cachoeirano(a)s.

Any Manuela de Freitas, coordenadora da Casa do Samba e neta de D. Dalva, contou ao Portal, que o Grupo Mirim Flor do Dia nasceu quando a comunidade do Samba de Roda percebeu uma lacuna na inserção da juventude na tradição. O grupo foi criado com crianças e adolescentes da comunidade do Rosarinho, filhos e filhas dos integrantes do Samba de Roda Suerdick.

“A proposta do Grupo é ensinar e trazer para jovens o conhecimento Samba de Roda e a importância da preservação desta e de outras tradições”, afirma Any. Dentre as atividades realizadas na Casa do Samba com as crianças e adolescentes, estão oficinas, fotografia, desenho, músicas e projetos diversos. Isso permite que os mais novos possam se identificar com diferentes expressões da arte. O mais interessante é que os principais agentes das atividades desenvolvidas, quando crianças, participaram do Grupo Mirim Flor do Dia, e esse também é o caso de Any. 

Um dos princípios da Casa do Samba é estimular o respeito e reconhecimento das figuras que estão ao nosso redor, sobretudo das pessoas mais velhas. Além disso a neta de Dona Dalva explicou que há uma preocupação com a diversidade e por isso as atividades dialogam com a arte moderna, tecnologias, respeitando e considerando as tradições. Any define o trabalho desenvolvido com o Grupo Mirim Flor do Dia como “um trabalho de educação artística, humana e patrimonial que atende aos objetivos do passado e é alimentado hoje pela continuidade das ações do Grupo e de outras ações e projetos realizados pela Casa do Samba de Dona Dalva”.

Atualmente aos 92 anos, Dona Dalva é presidente da Associação Cultural de Samba de Roda Dalva Damiana de Freitas e se dedica a produção de eventos culturais, atividades, cursos, projetos educativos e culturais da Casa do Samba que também carrega seu nome. Além disso, é uma das irmãs da Irmandade da Boa Morte  e ativista cultural. Em 2012, ela foi a primeira pessoa a receber o título honorífico de Doutora Honóris Causa pela Universidade Federal do Recôncavo da Bahia. Um título concedido a personalidades notáveis, sejam elas acadêmicas ou não, que têm destaque por contribuições para a sociedade.

Com o exemplo de Dona Dalva, e todas as ações que ela ajudou a fomentar em Cachoeira, na Bahia, no Brasil e certamente no mundo, pois sua semente é uma fonte inesgotável de sabedoria, acredito ser necessário que nós enquanto parte da juventude negra, possamos nos aproximar das nossas comunidades e conhecê-las em profundidade. Ouvir e respeitar os nossos mais velhos, bem como também nos unir (aquilombarmos) enquanto comunidade. Ações como as de Dona Dalva são essenciais e fonte de referência para cuidar das nossas trajetórias coletivas, pensar estratégias, preservar e difundir entre os nossos os saberes e práticas ancestrais.

Conhecer a nossa história é uma forma de nos aproximar de tudo que nos constrói enquanto povo e caminhar para a construção de uma comunidade negra ainda mais fortalecida.

Agradecimentos a Any Manuela de Freitas e a Casa do Samba de Dona Dalva

Camila Vieira

Camila Vieira é natural de Cachoeira-BA, cidade do Recôncavo Baiano. Formada em Serviço Social pela Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB), Mila como é chamada pelas colegas de equipe, já foi coordenadora geral do Centro Acadêmico de Serviço Social Marielle Franco (CASSMAF) e atua como social media no PBF.
“Reconheço a importância de espaços como este, que pretendem dar voz a nós mulheres negras, tratando das nossas vivências e travando as nossas lutas, e mais importante: levando informações para outras mulheres.” (Camila)

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