Como viver de amor não sendo o padrão posto? Afetividade de jovens e adolescentes negras homoafetivas

Ilustração: Rayssa Molinari

O racismo cruza nossas vidas em diversos campos. Nos debates travados sobre a realidade no mundo, a afetividade se destaca como um ponto que está inteiramente ligado à nossa subjetividade e com a  necessidade de nos afastar do estigma histórico de sujeitos que não recebem amor.

Podemos perceber isso, por exemplo, com a socióloga Ana Cláudia Pacheco que explicita nos seus estudos sobre afetividade.  As mulheres negras são as que mais tem dificuldade de serem inseridas em relações formais, como um namoro ou um casamento. Além disso, ainda há um vácuo muito grande no que se pese a ligação da afetividade com outras particularidades das nossas existências, como a sexualidade e os padrões estéticos. 

Nós, jovens e adolescentes lésbicas, bissexuais e gordas enfrentamos desafios para a construção de uma afetividade sadia que podem ser justificadas pelo combo de situações estruturais nas quais somos colocadas. Seja a LBfobia ou a gordofobia, todas elas são atenuadas pelo racismo. Essas opressões têm um ponto em comum: o olhar eurocêntrico, branco e masculino sobre nossas vidas. Por esse motivo, podemos dizer que as relações sociais e amorosas são definidas pela forma que somos vistas e tratadas na sociedade. 

“Dentro da comunidade lésbica, eu sou Negra e dentro da comunidade Negra, eu sou lésbica. Qualquer ataque contra pessoas negras é uma questão lésbica e gay porque eu e centenas de outras mulheres negras somos partes da comunidade lésbica. Qualquer ataque contra lésbicas e gays é uma questão negra, porque centenas de lésbicas e homens gays são negros.” (Audre Lorde)

A escritora, citada logo acima, é uma mulher negra, lésbica e de muita importância no combate às opressões. Ela está, simplesmente, afirmando que não existe uma hierarquia de opressão! Para além disso, também fica nítido como a multiplicidade das nossas vidas estão ligadas, ou seja, eu não posso falar da afetividade de jovens lésbicas e bissexuais sem me enxergar também no lugar de mulher negra e vice-versa.

Nossas relações amorosas são porta de entrada para conhecermos o mundo e nos conhecermos!  Nesse sentido, para além da dor e da felicidade, precisamos ter um olhar crítico sobre como lidar e como estamos sendo tratadas sentimentalmente.

Afetividade: jovens lésbicas e bissexuais

O medo é algo inerente às relações. Abordo aqui, porém, um que se refere como as estruturas sociais tratam as jovens que se relacionam com mulheres. Do local das vivências, o primeiro medo que se sente quando percebe-se a orientação sexual é de ter o amor negado pelas pessoas que as cercam. Juntando com a racialidade, a negação de laços que tragam um ambiente de aconchego são ainda mais ausentes, por exemplo, pelo mito da mulher negra forte e pelos estereótipos sexuais e estéticos que criam barreiras invisíveis tanto pela família quanto por relações amorosas que deixam nosso desenvolvimento marcado pela insegurança.

Afetividade: mulheres gordas 

A gordofobia e o racismo estão estritamente ligados: ambos são visuais e nos categorizam pelo olhar. Em uma análise histórica sobre estética, percebemos que o padrão de corpo magro entra em conjunto com o padrão branco. As mulheres africanas e indígenas, de forma generalizada, são estruturalmente grandes: cintura, peitos, braços. Essa característica de corpo foi sendo combatida com a colonização a partir da imposição da mentalidade e da religião cristã. Todo esse processo de discriminação se reflete nos dias atuais.

A invisibilidade das relações homoafetivas de jovens e adolescentes negras gordas parte de uma série de silenciamentos: o do próprio corpo em si, que além de não ser lido como um corpo político, também não é visto como um corpo de desejo. Nesse sentido, se, para jovens negras e jovens homoafetivas, o direito ao afeto e ao erótico (não ao erótico que é propagado pela indústria sexual, mas, sim, aquele que, como nos mostra Audre Lorde, o direito de explorar os desejos) já são negados, para corpos gordos, isso se torna ainda mais excludente. Pela falta de um movimento gordo de grande proporções, essas experiências não são vistas e conhecidas por outras pessoas a não ser as que sentem.

Calma, não tenha medo e não perca a esperança! Essa frase faz parte do processo de entender do que estamos dispostas a falar.. De toda sinceridade, quando penso em afetividade de jovens negras, em minha última possibilidade, pensaria em escrever de um ângulo positivo, tendo em vista esse cenário apresentado. Não só pelo fato de ter experiências negativas, mas sim por conta  dessas experiência, esquecemos de outros caminhos para alcançar relações que nos compreendam, representem e alimentem.

Trazendo nossas experiências amorosas de que amamos mulheres, podemos entender o local de dor e subvertê-la em ações! Não tenho a receita para alcançarmos o ápice do amor romântico, caso ele exista. Mas trago aqui uma reflexão para que possamos nos repensar enquanto sujeitos, o que queremos e o que esperamos das nossas relações.

Nosso amor é político. Como todos os nossos processos, o amor negro e homoafetivo se caracteriza como resistente, resiliente e lindo.

Natália Alcântara

Baiana nascida na Ilha de Itaparica, Natália Alcântara morou nesse Brasilzão todo das deusas. Interessada pela vida e por conhecer de tudo e de todos, estuda história na Universidade do Estado da Bahia (UNEB). É professora de história e no PBF atua como colunista.

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