Cada um pode ter fé no que acredita!

No Brasil, o Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa foi estabelecido por meio da Lei 11.635 em 27 de dezembro de 2007, devido a um caso absurdo, porém, pouco conhecido pela maioria da população, de Intolerância. Em 1999, na Bahia, a iyalorixá Mãe Gilda do terreiro Axé Abassá de Ogum teve sua imagem inapropriadamente exposta na edição do Folha Universal – Jornal da Igreja Universal do Reino de Deus – ao lado da manchete “Macumbeiros Charlatões Lesam a Bolsa e a Vida dos Clientes — O Mercado da Enganação Cresce no Brasil, mas o Procon está de Olho”.

Além de ter sido acusada de charlatanismo, o terreiro a qual ela pertencia fora invadido por membros da igreja Deus é Amor e como se não bastasse, tentaram “exorcizá-la” submetendo-a a agressões físicas e verbais. O fato levou a Mãe de Santo a recorrer por uma ação judicial contra os agressores e difamadores. Contudo, em 21 de janeiro de 2000, Mãe Gilda faleceu aos 65 anos, decorrente de um infarto fulminante em consequência, segundo seus familiares, dos acontecimentos que a abalaram e abalaram toda comunidade das religiões de matrizes africanas da Bahia.

O caráter emblemático deste episódio transformou o dia 21 de janeiro em uma homenagem à Iyalorixá, e uma maneira de incentivar a convivência pacífica entre todas as diferentes ideologias e doutrinas religiosas. Todavia, isso não foi suficiente para que a perseguição e o racismo religioso contra as religiões de matrizes africanas cessassem. Em 2016 o busto erguido em memória de Mãe Gilda, no bairro de Itapuã foi destruído, fato que ilustra os alarmantes dados de vítimas de violência em função da intolerância religiosa, em outras palavras, poderíamos dizer, em função do racismo.

Ao longo da história do país, tivemos sete Constituições, sendo a primeira, a Constituição de 1824 na qual, “garantia” a liberdade religiosa e a proibição da perseguição por motivos religiosos. No entanto, a lei expressava-se de maneira contraditória, pois estabelecia restrições para o local dos cultos que não fossem da religião oficial do Estado (o catolicismo). 

Apesar de o país prever hoje a plena liberdade de religião por meio da Constituição, como também, considerar a intolerância religiosa um crime, previsto no artigo 20 da lei nº 7.716/89, há evidências de que ele (o Estado) não assegura de maneira eficaz a convivência harmoniosa entre todas as religiões, e por meio de leis, mascara os privilégios das religiões que não tem relações com matrizes africanas ou indígenas. Segundo matéria da BBC News Brasil, publicada  no ano de 2016, a hostilidade que enfrentam os candomblecistas e umbandistas do Brasil, deve-se a dois fatores principais: “por um lado o racismo e a discriminação remontam à escravidão e por outro, o Brasil colônia rotula tais religiões pelo simples fato de serem de origem africana”, afirma Jefferson Puff, autor da matéria. O segundo fator, e não menos importante citar segundo a BBC deve-se “a ação de movimentos neopentecostais que nos últimos anos teriam se validado de mitos e preconceitos para “demonizar” e insuflar a perseguição a umbandistas e candomblecistas” mesmo quando a figura do demônio se quer existe para estas religiões.

Hoje, no Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa, nós queremos lembrar a você a importância de não relativizar o assunto. Sabe-se que a intolerância aflige as mais variadas crenças, mas mesmo não sendo pertencente às comunidades das religiões de matrizes afros, faz-se necessário de maneira urgente, que as comunidades africanas em diáspora (a comunidade do candomblé, a comunidade da umbanda, os quilombos e demais minorias), aquelas que mantém vivas as tradições de nossos antepassados e anciões, possam ser protegidas por toda população negra, bem como pela população autodeclarada antirracista, afinal, racismo não é um problema de/para com os negros. O racismo é problema da sociedade, e para que não haja intolerância, é preciso que cada um possa em paz, ter fé no que quiser! 

*Revisão e Edição: I’sis Almeida, supervisão de Beatriz Pimentel | Coordenadora e Editora-Chefe do Portal

Glória Greice

Glória Greice, também conhecida como Glorete é carioca da gema e atualmente estudante de nutrição na UNIRIO. Ama cantar, mas nunca sonhou em ser cantora, até o momento em que descobriu como usar a sua voz. Ela considera que cantar e escrever sejam dons dados por seus ancestrais que tiveram as vozes roubadas. Para Glória, a voz é uma importante arma de combate ao racismo e ela a utiliza em todos os espaços que ocupa. No portal, atua como colunista.
“Considero o portal o lugar certo para alcançar pessoas. Lutar numa guerra sozinho é cansativo. Poder lutar num coletivo que tem o mesmo objetivo que o seu é uma benção!” (Glória)

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