As mulheres negras estão por conta própria: a importância de fortalecer o movimento feminista negro no Brasil

Ilustração por Tainá Esquível

Todo início de ano, faço uma reflexão sobre o ano que passou. Penso onde estávamos e onde chegamos, o quanto nossos pés conseguiram caminhar. Penso, também, nas pedras que encontramos no caminho e quem estava ao nosso lado. O ano de 2018, especificamente, derrubou máscaras, rompeu algumas relações e fortaleceu outras, mostrou quem, de fato, eram as pessoas que estavam ao nosso redor. Não tem como negar que nós, mulheres negras, sofremos uma derrota nas eleições presidenciais que se passaram. Um projeto político, representado por Jair Bolsonaro e sua legião de seguidores, triunfou e, em poucos dias do seu (des)governo, medidas contra as minorias políticas, como mulheres, negros, indígenas, quilombolas, trabalhadores rurais, foram tomadas. Anos de lutas e mobilizações dos movimentos sociais foram e estão sendo destruídos em poucos segundos, com rápidas assinaturas em papéis oficiais.

No meio de um cenário onde o medo e a desesperança prevalecem, ficamos sem saber o que fazer e nos questionamos se devemos seguir com os nossos planos. Confesso que, após as eleições, a minha mente estava impregnada com essas e outras interrogações, até que tive que decidir: parar no tempo ou pensar no futuro. Nesse momento, consegui recarregar as minhas forças ao lado de outras mulheres negras, através das práticas e dos ensinamentos do feminismo negro. Mas o que é o feminismo negro e por qual motivo, através dele, eu continuei trilhando o meu caminho? Nos últimos anos, o feminismo virou assunto comum nas rodas de conversa. Na maioria das vezes, essas discussões trouxeram visões equivocadas e estereotipadas, como se o feminismo fosse um movimento de mulheres que odeiam os homens ou, simplesmente, de mulheres que querem ser iguais aos homens, o que não é um fato.

A definição de feminismo que, ao meu ver, é a mais completa é trazida pela teórica feminista negra, bell hooks. Segundo a autora, “feminismo é um movimento para acabar com sexismo, exploração sexista e opressão”. Tal definição mostra que o feminismo não considera os homens como inimigos, mas que, na real, as ações sexistas, ou seja, as atitudes que fortalecem a desigualdade de gênero na sociedade são os verdadeiros alvos das feministas.

Para entender o feminismo negro, é importante compreender o movimento de modo geral, porém, existe uma diferença crucial entre o pensamento das feministas negras e das feministas brancas. Não é nenhuma novidade que vivemos em uma sociedade racista, em que a população negra sofre com o deficiente acesso às políticas públicas básicas, como saúde, segurança, educação, saneamento básico, por exemplo. Nós, negras, somos vítimas da desigualdade de gênero, por sermos mulheres, mas, também, sofremos com a discriminação racial por conta dos nossos cabelos crespos, da nossa pele escura, dos nossos traços negros.

E aí que está a questão. As feministas brancas, por gozarem do privilégio de raça e, muitas vezes, de classe, acreditam que, para construir uma sociedade igualitária, basta apenas acabar com a desigualdade entre os gêneros. Em contrapartida, o pensamento feminista negro fala sobre a natureza interligada da opressão. Mas o que é isso? As mulheres negras não sofrem apenas com a desigualdade de gênero. Logo, para elas, não é viável combater uma única opressão, visto que sofrem, também, com o racismo e, em diversas situações, com o classismo, a lesbofobia, entre outras. Tais opressões estão conectadas e para que, de fato, tenha-se uma sociedade igualitária, deve-se combatê-las de forma simultânea. Dessa forma, percebe-se por qual motivo as mulheres negras estão por conta própria.

Nós vivenciamos as nossas experiências de uma maneira única, carregamos os estereótipos da mulata, da exótica, do burro de carga, somos desumanizadas e, toda vez que desafiamos as estruturas vigentes que nos oprimem, nos punem. A feminista negra Patricia Hill Collins fala sobre a importância da cultura de mulheres negras, trazendo o conceito de irmandade, sentimento de solidariedade e de lealdade existente entre nós, a partir do momento em que percebemos que sofremos opressões semelhantes. Por mais que muitas mulheres negras não conheçam o feminismo negro na teoria, fica evidente que, nos seus cotidianos, nos bairros periféricos do nosso país, a irmandade entre elas existe quando, por exemplo, não conseguem matricular os seus filhos na creche do bairro, não conseguem uma consulta com o médico do posto de saúde, chegam atrasadas nos seus empregos por falta de ônibus, entre outras situações que as conectam, fortalecendo-as, ajudando-as a resistir às dificuldades do dia a dia.

Com o feminismo negro, aprendi uma importante lição. Uma lição que não está presente nos livros acadêmicos, que não está presente nos ensinamentos engessados transmitidos em salas de aula. Aprendi que a nossa resistência não começou agora. Os nossos passos, mulheres negras, vêm de longe e continuaremos a nossa caminhada, em luta permanente, até conquistarmos uma sociedade justa para todas e todos. Ao lado de mulheres negras, reconhecendo e superando as opressões que fomos, socialmente, educadas a reproduzir umas com as outras, encontrei um espaço de conforto e de construção de estratégias para a nossa sobrevivência, sustentado nos princípios da irmandade e da solidariedade negra.

Pensar sobre a união existente entre as mulheres negras, traz-me de volta às eleições e aos eventos que se sucederam ao seu resultado. No dia seguinte, as redes sociais foram inundadas com a frase “Ninguém solta a mão de ninguém!”. Inicialmente, enxerguei esse movimento com certa animação. Afinal, a meu ver, o caminho a trilhar é o da resistência coletiva. Só que, poucos minutos depois, após refletir bastante sobre a conjuntura e como chegamos até aquele ponto, pensei: “Como você não vai soltar a mão que nunca segurou?”.

Historicamente, as mulheres negras seguraram as mãos umas das outras e ninguém mais, nem mesmo o homem negro, uma das principais vítimas da violência racista no Brasil, as segurou. Estamos conectadas a partir das nossas vivências comuns. Partindo disso, faz-se necessário conversar com vocês, jovens negras, leitoras do nosso Portal.

Para o ano novo que se inicia, faço um chamamento para cada uma de vocês. Olhem para o lado, cuidem das suas irmãs negras e segurem as suas mãos, como nos ensina o feminismo negro. Sozinhas, não conseguimos transformar muita coisa, mas, quando nos juntamos, os racistas tremem na base!

Lara Carina Amorim

Lara Carina Amorim, a moça da Tia Nastácia Doces e Trufas (procure saber), desenvolve pesquisa sobre adolescentes negras em privação de liberdade. Escritora nas horas vagas, bacharela em Humanidades pela Universidade Federal da Bahia e graduanda em Estudos de Gênero e Diversidade pela mesma instituição, no Portal Black Fem, atua como editora-chefe e colunista do portal.
“Fomentar debates sobre a condição da mulher negra na sociedade contemporânea, trazendo situações do nosso cotidiano, embasado em intelectuais negras.” (Lara)

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