Árvore-chão guardiã de memórias: nossa ancestralidade guardada na história das nossas famílias

Ilustração: Leandra Gonçalves 

Somos o fruto de uma árvore cheia de histórias, que brota de um chão fértil aprofundando suas raízes e erguendo os galhos em direção ao sol. Galhos, folhas e frutos que se alimentam de uma mesma fonte de vida. Assim é a nossa família e a história dos nossos ancestrais – somos entrelaçados por um fio invisível que vai tecendo a nossa existência no presente, alimentada pelo passado e construindo o futuro.

Quando um fruto dessa árvore cai no chão, nasce naquele lugar um novo ser que carrega consigo as características da sua origem. Carregamos de nossos ancestrais a cor da nossa pele, a estrutura dos nossos cabelos, o formato do nosso corpo, o nosso modo de pensar, nossas crenças, hábitos e uma memória que, às vezes, ainda não é possível acessar ou compreender. Nossos ancestrais são a árvore-chão que guarda as memórias de muitas vidas que vieram antes de nós e nos dão a direção de como seguir nossa jornada.

“Se posso colocar-me de pé é porque minhas costas estão apoiadas em minhas ancestrais”. Esse provérbio yorubá é apresentado por Ida Mara Freire, mulher negra, pedagoga e especialista em dança, em seu texto Tecelãs da Existência ao narrar a história de sua família. Ela nos conta como a nossa ancestralidade é um fio invisível que vai entrelaçando as nossas vidas com as das nossas avós e avôs, tias e tios, irmãs, irmãos, pais e as nossas mães. Nossa família é como um novelo de lã que vai tecendo a forma como nos colocamos no mundo.

Olhar essas histórias requer coragem e um mergulho profundo em nossas raízes para compreender quem somos. Saber de onde viemos é o primeiro passo para construirmos nossas estratégias de existência. Assim como o nosso povo possui grandes nomes como Aqualtune, Dandara, Zumbi, Luiz Gama, N´zinga e tantos outros que a história dita oficial não nos conta, os registros dos nossos antepassados também foram apagados, como o nome, sobrenome e a terra de onde vieram. 

O apagamento da nossa memória é uma estratégia da colonização! Glória Greice, nossa colunista do Portal Black Fem, em seu artigo ‘Me recuso a carregar o nome do opressor’, narra sua história de buscar pelos significados e origens dos seus sobrenomes e nos conta o quanto ainda carregamos os nomes dos colonizadores. Este é um processo de embranquecimento das nossas memórias que nos afasta das nossas origens africanas e dos povos originários (indígenas).

É preciso reconhecer que em nossas famílias também experimentamos histórias de luta, resistências, afetos e tradições em que é preciso honrar as escolhas daqueles que vieram antes de nós. Honrar significa tratar com respeito e reverência, pois nem todas as escolhas são fáceis e nos alegram. Muitas vezes, nossas relações familiares são conflituosas e expõem nossas dores, vulnerabilidades e traumas. Contudo, nossos mais velhos são as raízes que nos deram a vida e nos dão força para construir as nossas histórias. Até mesmo para acolher o que foi construído até aqui e mudar a rota. 

Desenhar a árvore da nossa ancestralidade pode ser uma maneira poderosa de mapear as histórias das nossas famílias. Procurar saber quem foram as nossas avós e avôs; como foi a infância dos nossos pais. Buscar por certidões de nascimento e outros documentos que podem revelar um mundo desconhecido. Nesse movimento, observar os nossos nomes e sobrenomes, seus significados e de onde vieram. Perguntar aos mais velhos os caminhos que percorreram pela vida – onde nasceram, por onde andaram, seus sonhos, o que construíram. Suas histórias sobre a infância, seus amores e desafetos. As músicas preferidas, a flor que encanta os seus olhos. Aquela receita de bolo da tarde e a forma de passar o café.

Nossas histórias de resistência, mais do que grandes feitos ou aventuras, são as histórias do cotidiano. Aquelas que vivemos no caminho para a padaria, na rotina, nas manias e nos encontros de família em que o assunto dos pais é falar sobre os filhos.

Investigando a nossa árvore genealógica poderemos compreender como o lugar que ocupamos no mundo foi um avanço gerado pelos passos daqueles que vieram antes de nós. Às vezes, uma casa que conseguiram construir com muito esforço ou uma tradição que se perpetua no tempo que nos dá sentido e direção para buscarmos os nossos sonhos. Nessa busca pelas histórias de nossas famílias, cada um poderá perceber o que cada ancestral contribuiu para a sua existência. 

Talvez, você sinta que em nada avançou, pois o lugar que ocupa ainda possui muitas barreiras e conflitos. Mas ouso dizer que, enquanto povo preto, estamos avançando apesar de toda história de luta porque viemos de longe e a ainda temos uma estrada muito longa a percorrer. Pode até não parecer, mas a sua família tem construído degraus e sua história também será contada por aqueles que virão depois de você. Ser ancestral para os povos africanos e afrodescendentes é viver o sentido de coletividade. Existimos porque o outro existe. E a morte para nós não é um fim já que a vida brota a cada nascimento e mantém a nossa árvore de pé. Assim, de ancestral em ancestral caminhamos por esta terra.

Se a nossa identidade está enraizada em nosso passado, precisamos retomar o nosso pertencimento para a reconstrução das nossas comunidades e do nosso povo. Encarar as feridas que precisam ser curadas, compreender as histórias que se repetem em nossas famílias, desatar alguns nós e avançar na direção de reestabelecer o nosso legado. Assim, entrar em contato com a nossa ancestralidade é, antes de tudo, uma estratégia de resistência e um resgate necessário para compreendermos quem somos, de onde viemos e para onde queremos e precisamos caminhar. Nossos passos vêm de longe!!

Suzana Barbosa

Escrever é o caminho que encontrei para ser resistência e construir afetos. A palavra salva, conecta e cria pontes. Sou geógrafa de formação e acredito na política que se faz no cotidiano junto ao nosso povo.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *