África que nos une

Ilustração por Leandra Gonçalves

Ser uma pessoa preta, na diáspora, significa experienciar o mundo de uma forma única. Nós vivemos inúmeros desafios no dia a dia, entre eles encontrar e cultivar o amor e o cuidado em nossas relações. Essa dificuldade é criada no contexto da escravização, quando os nossos ancestrais, os povos negros da África, foram arrancados de suas famílias, comunidades e terras. Dessa forma, forçou-se um desligamento dos princípios e valores que eram cultivados, como a união e o senso de comunidade.

A separação dos negros de sua cultura foi uma das principais estratégias adotadas no processo de escravização desses corpos, uma vez que os tornava mais vulneráveis à dominação ao promover uma intensa fragilidade emocional, espiritual e psicológica. Assim, foram condicionados a negar a auto-estima, perpetuar os relacionamentos tóxicos e a reproduzir a brutalidade usada contra os seus corpos e mentes. O povo negro sobreviveu e resistiu a uma violência desumana secular fundamentada por uma ideologia racista que, até hoje, é propagada pela supremacia branca e solidificada pela mídia e pelas estruturas de poder na sociedade.

Esse estado vulnerável no qual nos encontramos pode ser revertido apenas por nós, isto é, pela união das negras e dos negros. Ainda podemos recuperar a essência dos nossos ancestrais. Precisamos nos auto organizar para nos curarmos de todo esse peso que depositaram em nossas costas, construindo novos rumos para o povo negro e formas de superação da estrutura racista enraizada na sociedade. Para isso, o caminho a ser seguido passa pelo relacionamento e pelo conhecimento.

Para quebrar o paradigma de pertencer a um não-lugar, necessitamos, para além do processo de auto-organização, unir-nos em encontros, atos e celebrações que fortaleçam e resgatem os ensinamentos africanos. A Kwanzaa é uma festividade que podemos colocar em prática visando atingir tal objetivo. A celebração foi criada na década de 60 pelo professor pan-africanista da Universidade da Califórnia, Maulana Karenga. Trata-se de uma manifestação fundamentada em sete princípios que busca enaltecer e reunir famílias e amigos para uma troca de aprendizados, reflexões e experiências.

A Kwanzaa é uma festa de fim de ano que ocorre do dia 26 de dezembro ao dia 01 de janeiro. Em cada dia, comemora-se um ideal em meio a danças, músicas e histórias, sendo Umoja o primeiro princípio. Sua base é a família, a comunidade e a raça, valorizando esses elementos. O segundo é Kujichagulia referente à dedicação e à construção de nosso futuro e o terceiro, a Ujima, que está relacionada ao trabalho coletivo e à responsabilidade. Celebra-se também a Ujamaa, que propõe o desenvolvimento de atividades econômicas dentro da própria comunidade e a Nia, ligada à perpetuação de valores africanos a partir do coletivo. Por último, comemoram-se a Kuumba que destaca a importância da criatividade e a Imani que ressalta a fé e ancestralidade.

Portanto, a festa serve como uma ferramenta para aprofundarmos nossas relações interpessoais, praticarmos o autocuidado em uma sociedade que nos adoece e, também, para nos reconectarmos com os ensinamentos criados por negras e negros. As suas reflexões abrem espaço para discutirmos nossas angústias, nossas dores e medos, trazendo, assim, conforto, ao reforçar a ideia de que não estamos sozinhos.

Nosso fortalecimento parte de nossa humanização que vem da união e do conhecimento. Assim, para além da transferência de ideais e sentimentos, a Kwanzaa é capaz de transformar e de ressignificar nossas vidas, pois as valoriza e as enche da sensação de pertencimento que, cotidianamente, nos é negada. Isso porque compartilhar as vivências com aqueles que entendem o que passamos tem um poder curativo e reconfortante. Dessa forma, nós, povo negro, através da união e força da coletividade, estaremos indo contra tudo que nos foi imposto de maneira violenta e dolorosa.

Lívia Nara

Lívia Nara é a mascote da turma! Apesar da pouca idade, foi responsável pelo primeiro texto autoral do portal disponibilizado na plataforma Medium, publicado no dia 25 de julho de 2018, dia da Mulher Negra Afro-Latina Americana e Caribenha.
“O meu desejo é trazê-las para perto e fazer com que cresçamos juntos, porque, afinal, é nós por nós sempre.” (Lívia)

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