A romantização da família e as festas de final de ano

Ilustração por Leandra Gonçalves

Se por um lado nos encantamos com os princípios de união, não devemos deixar de refletir que lutar pela unidade da família e a crença em líderes pode nos levar a processos arriscados. Estamos caminhando sobre os escombros de uma eleição que trouxe a público maus sentimentos no sentido mais literal da palavra. Feridas e rompimentos que talvez sejam impossíveis de reparar.

Venceu o candidato que propagou boa parte do tempo em seu discurso: o preconceito, a valorização da “família”, o combate à corrupção e a instauração da ordem. De “intelectuais” e artistas a pessoas comuns, observamos nesta eleição, um coro enorme em nome da manutenção da família e até mesmo de Deus.

Em em dezembro, a culpa cristã aumenta, não à-toa atos de “solidariedade” surjam em maior número neste período. Já observou as sinaleiras? São doações de cestas básicas, roupas, brinquedos, tudo que pode aliviar a culpa e reforçar o quão caridoso cada motorista no seu supercarro imagina ser. Atos que não são errados, porém, podem ser questionados quando paramos para refletir as razões pelas quais somente no final de ano as pessoas parecem se importar mais com os seus diferentes.

Devemos lembrar que relações abusivas e tóxicas se desenrolam principalmente no ambiente familiar e, que, laço sanguíneo não garante um bom relacionamento emocional. Portanto, não há nenhum problema em tirar pessoas tóxicas de sua vida ainda que elas sejam da sua família. Uma relação tóxica é quando percebemos que entre qualquer pessoa com quem convivemos passa a existir com frequência: humilhação, controle excessivo, negação das suas qualidades.

Romantizar o grupo familiar é criar a expectativa de que essas pessoas irão te amar incondicionalmente e te acolher na mesma proporção do seu afeto e com respeito. As festas de final ano gerenciadas pela cultura mercadológica, são o cenário principal das tentativas fracassadas de celebração custe o que custar.

Antigamente, era só a piadinha infame do pavê ou (“pacumê”), mas há também a oportunidade de manifestações cruéis de inveja, racismo, homofobia sob a capa de “minha opinião” e divergência política. Você não precisa amar todo mundo e está tudo bem! Passe as festas de final de ano e datas importantes com quem te faz sentir bem!

Luise Reis

Luíse Reis é advogada e letróloga pela Universidade Federal da Bahia (UFBA). A ariana convicta é ativista das questões raciais e de gênero, é membro do Conselho Consultivo da Jovem Advocacia e advogada da equipe interdisciplinar do CPDD-LGBT (Secretaria de Justiça, Direitos Humanos e Desenvolvimento Social da Bahia). No portal, atua como colunista e social media.
“Precisamos nos articular e promover espaços de discussão política e autocuidado.” (Luíse)

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