A presença da Apropriação Cultural nas fantasias carnavalescas

Ilustração por: Leandra Gonçalves

A época de carnaval é um dos momentos mais esperados por boa parte dos brasileiros, para muitos é o período mais libertador do ano. E para completar o auge de toda essa mistura de emoções, estão as famigeradas máscaras e fantasias, uma das principais características da folia.

A cautela no momento de escolher a fantasia é essencial. É importante que, nenhuma cultura, raça ou religião seja ofendida e, ou ridicularizada a partir dessa vestimenta e de seus respectivos acessórios. Cada cultura possui suas peculiaridades, instrumentos que carregam significados grandiosos e até mesmo sagrados para quem o possui. Quando alguém fora desse recorte faz uso desses itens, apenas por uma questão estética sem ao menos entender sua origem, acaba por desvalorizar a sua essência, menosprezando tudo o que aquilo representa. Desde a cultura propriamente dita, até a luta diária de um povo para que a história construída por seus ancestrais e mantida até agora não caia no esquecimento, e seja desmanchada por conta da estrutura opressora que a sociedade direciona às minorias.

Nesse caso, retirar características de seu cenário originário e favorecer seu apagamento em meio a uma sociedade etnocida — que tende ao extermínio de uma cultura — é apropriação cultural. O conceito em si, diz a respeito da adoção de alguns elementos específicos de uma cultura por outro totalmente distinto, geralmente carrega sentido negativo quando se trata de uma cultura dominante se apropriando de algo pertencente a uma minoritária.

Por exemplo, ao que se refere aos indígenas, o uso do cocar por pessoas não pertencentes a esse grupo é desagradável. Primeiramente, é importante ressaltar que o cocar é altamente simbólico, podendo significar responsabilidade e respeito, com o uso limitado as pessoas de determinadas posições, para obtê-los é necessário o merecimento, a conquista. E ainda, o uso indevido como recreação ou satisfação pessoal disfarçado de “homenagem” acaba tornando o indígena um mito que se perdeu no passado, sendo que essa não é a realidade. Os povos indígenas continuam existentes e com demandas importantíssimas que são praticamente ignoradas a maioria do tempo, não é justo valorizar apenas o que nos convêm.

Para as pessoas que não fazem parte dessas culturas, usar esse tipo de vestuário as faz serem bem vistas em comemorações ou festivais, porém, longe desses espaços os grupos minoritários sobrevivem com um alvo em suas costas, lutando todos os dias pelos seus direitos. Então, alguém de fora fazer uso dessa cultura e não ser discriminada se torna pura demonstração de poder.

Uma das discussões que se torna relevante nesse assunto é de até que ponto podemos ou não fazer uso de coisas que são de outras culturas, já que com a miscigenação e a globalização é praticamente impossível não haver um intercâmbio cultural no dia a dia. O fazer não é exatamente errado, o problema é quando isso se torna preconceituoso e a luta do outro é banalizada e ridicularizada. Um dos casos mais preocupantes que traz consigo uma carga extremamente preconceituosa é a “nega maluca” em que pessoas não negras fazem black face, ou seja, pintam o rosto de tinta preta, colocam enchimentos para simbolizar os seios e nádegas e imitam os cabelos crespos com perucas, satirizando e reforçando a hipersexualização da mulher negra. Definitivamente, ser negro não é fantasia!

Os black faces surgiram no início do século XIX e ao ganhar popularidade, percorreram o mundo. Se refere a uma prática teatral em que atores brancos pintavam os rostos de carvão de cortiça, com exceção dos lábios (realçados com uma coloração vermelha intensa e exagerada) para representar personagens afro-americanos de maneira pejorativa, uma vez que pessoas negras não podiam participar de peças teatrais. Essa artimanha possuía o objetivo de servir de entretenimento para a aristocracia branca-escravocrata, com intuito exclusivo de satirizar e ridicularizar os negros. O declínio deste gênero veio com o crescimento do movimento dos direitos civis dos negros nos Estados Unidos, em meados da década de 1960.

A miscigenação é algo forte e está enraizado em todo brasileiro, mas é importante sempre relembrar que ela não foi criada de forma romantizada, a cultura é híbrida porque somos um país colonizado, muitos elementos de distintas culturas já são usados, inclusive em nossa língua, porém, tem certos aspectos que implicam a resistência de um povo e não são superficiais, não são fantasia. Por isso é interessante fugir de toda caracterização que traga um estereótipo para determinado grupo, como homens vestidos de mulheres que aludem a pessoas transexuais de uma forma negativa, e também como os “terroristas” que por conta da cultura hollywoodiana associamos diretamente aos muçulmanos.

Atualmente, não é difícil vermos muitas pessoas levantando os seguintes questionamentos, “agora tudo é preconceito, mimimi” ou “antigamente ninguém achava ruim”. É importante que esteja claro que em meio uma trajetória de sobrevivência e luta, pode ser que essas questões só estejam sendo levantadas agora porque determinados grupos só alcançaram — por menos valorizado que seja – a oportunidade de se expressar e de serem ouvidos recentemente. E também, isso varia de acordo com suas demandas, como já citado, existem grupos que ainda precisam lutar pela sobrevivência de seus iguais. Para muitos, talvez essa discussão ainda esteja distante, mas isso não significa que ela seja de baixa importância, apenas que direitos primordiais e universais como à vida, à liberdade e à segurança pessoal ainda não os seja assegurado.

Rayanne Candido

Rayanne Candido, mais conhecida como Ray, é estudante de Jornalismo na Universidade Estadual Paulista (UNESP) de Bauru e natural de São Paulo Capital (famosa terra da garoa). Filha da água doce, apaixonada pelo verão e pelo sol, atua como colunista no portal e acredita que a escrita é uma das formas mais bonitas de mudar o mundo.
"Admiro e carrego comigo o conceito de Ubuntu, eu sou porque nós somos, eu sou porque pertenço, e além disso, tenho o objetivo de fazer o máximo que eu puder para que aquelas que vierem depois de mim possam ir além". (Rayanne)

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