A natureza que habita em nós: uma visão holística acerca do corpo feminino e de seus ciclos

Ilustração por Leandra Gonçalves

Com a colonização branca, o corpo feminino negro foi submetido à constante desumanização, tanto na Diáspora, quanto em África. Assim, houve um rompimento para com o conhecimento ancestral praticado pelas mulheres e anciãs dedicado aos cuidados físicos e mentais. A ciência e a medicina europeia, vistas como desenvolvidas e civilizadas, condenaram e demonizaram tais saberes. Forçaram a desconexão com o sagrado feminino, ou seja, com a harmonia do nosso corpo e de seus ciclos com a natureza.

Visando resgatar tais técnicas, a ginecologia natural surge, enaltecendo a importância do autoconhecimento e a beleza que as mulheres carregam naturalmente em seu interior. O ventre é colocado, portanto, como seu centro energético e como divino. O ciclo menstrual, portanto, carrega enorme significado, pois, é a manifestação da natureza no corpo de uma mulher. Como a lua e as estações do ano, ele pode ser dividido 4 fases: menstruação, fase proliferativa, fase ovulatória e fase secretora (ou pré-menstrual). Em cada fase, a mente, as emoções e o próprio organismo passam por mudanças específicas e particulares. A ginecologia natural destaca a relevância de se observar e se conhecer durante esses momentos, pois, o corpo pode se comunicar e o faz a todo instante.

É compreensível que muitas não conseguem enxergar a beleza de seus processos com tanta facilidade devida às intensas cólicas menstruais. Entretanto, o movimento acredita que menstruar não deve ser sinônimo de sofrimento e mal-estar e quando isso ocorre, é um sinal de que algo está errado. A dor não revela obrigatoriamente a presença de uma doença. Ela pode ser causada pelo consumo excessivo de açúcar, lacticínios e alimentos industrializados, pela ausência da prática de exercícios físicos e pela rotina estressante. Dessa forma, é essencial estar atenta aos sinais fornecidos pelo corpo e aos hábitos e costumes praticados e para isso, é preciso estar aberta ao sentir.

Cada mulher vivencia seu ciclo de maneira individual, portanto, analisar seu corpo, suas reações e sinais deve ser um procedimento diário. Isso lhe permite reconhecer a vitalidade que seus processos carregam. Isso é se conhecer.

A ginecologia natural enquanto prática:

Tal filosofia incentiva cuidarmos do corpo feminino a partir do uso de ervas e plantas medicinais, como alho, artemísia e camomila. Existem inúmeras práticas que utilizam desses recursos, como a vaporização do útero e o banho de assento, e que possibilitam uma experiência única, ligando o corpo a sua essência.

A vaporização do útero se trata de uma sauna íntima, que promove a limpeza física e energética do mesmo. Para fazê-la, basta ferver água e colocá-la, junto da erva terapêutica de sua escolha, em um recipiente que retenha calor, preferencialmente feito de barro, louça ou vidro. Em um ambiente calmo, recolha-se e ponha-se de cócoras em cima do recipiente, sem a calcinha, para que o seu canal vaginal absorva o vapor. Por fim, aproveite os benefícios dessa técnica, como a redução de sintomas da TPM, alívio de cólicas menstruais e a desintoxicação do útero e da vagina.

O banho de assento por sua vez, consiste em um tratamento natural que possui diversas receitas, usando desde vinagre até folha de goiabeira. Após preparar um chá bem forte da erva de sua preferência, deve-se sentar em uma bacia, deixando a vulva e a vagina “de molho”. Esse ritual pode ser realizado tanto quente, quanto frio. É fundamental aproveitar o momento de autocuidado para meditar e se conectar com si mesma. Observe seu corpo, descarregue-se do peso do mundo, se cure. Afinal, as mulheres pretas também merecem viver com leveza e amor.

A ginecologia natural afirma que o corpo feminino é uma extensão da Mãe Terra, portanto, as práticas mencionadas fortalecem a conexão entre os dois. Além disso, elas distanciam a menstruação das convicções tóxicas do patriarcado que lhe impõem o caráter de suja e nojenta, subvertendo os padrões limitantes e viabilizando um contato íntimo e puro de uma mulher negra com seu próprio corpo. Mergulhar nesses conhecimentos indígenas e africanos é libertador. Procure aprender com as mais velhas, pois, a saúde do corpo e da mente pode e deve ser sua prioridade. Utilize a Internet para acessar sites como a Ginecologia Natural, por Bel Saide, para ampliar seus estudos e compartilhe seus aprendizados com as pretas ao seu redor, pois nada melhor do que o autocuidado ser aprendido também no coletivo.

Existem alguns outros cuidados básicos que não podem ser desprezados, como não utilizar calças muito apertadas, não colocar a calcinha para secar no box do banheiro, urinar sempre que necessário, isto é, assim que der vontade e dormir sem a peça íntima. Assim, evita-se a proliferação de fungos e bactérias, mantendo a saúde da vulva e vagina.

Conhecer-se e a seu corpo é algo indispensável e esse processo pode desabrochar e ser impulsionado com o uso de alguns recursos, como o coletor menstrual, as calcinhas absorvente ou os absorventes de pano. Esses elementos são, além de sustentáveis, capazes de oferecer um contato mais íntimo e uma experiência mais confortável durante a menstruação.Tais produtos permitem a observação real de seu fluxo, da quantidade de sangue eliminado, da cor, textura, além de ser possível plantar a lua, isto é, de devolver o sangue à terra, usá-lo para regar suas plantas, afinal, ele pode gerar vida.

Por fim, a ginecologia natural acredita que se empoderar é entender e conhecer seus ciclos, suas fases, vivendo em harmonia e equilíbrio para com a sua natureza. Para além das pílulas anticoncepcionais que fazem a mulher experienciar um ciclo artificial e das opressões do sistema patriarcal que ocultam o poder dos ciclos. Usufruindo dos saberes das mulheres precedentes, há espaço para cura e para reconexão com aquilo que as mulheres negras foram distanciadas: a honra de serem quem e como são. Há espaço para celebrar a natureza que habita em cada uma.

Lívia Nara

Lívia Nara é a mascote da turma! Apesar da pouca idade, foi responsável pelo primeiro texto autoral do portal disponibilizado na plataforma Medium, publicado no dia 25 de julho de 2018, dia da Mulher Negra Afro-Latina Americana e Caribenha.
“O meu desejo é trazê-las para perto e fazer com que cresçamos juntos, porque, afinal, é nós por nós sempre.” (Lívia)

Comentários: “A natureza que habita em nós: uma visão holística acerca do corpo feminino e de seus ciclos

  1. Esse post mexeu comigo de uma forma. Uma das coisas que eu mais tive e tenho dificuldade como mulher é respeitar e vivenciar meu ciclo menstrual, sempre pareceu horrível e desnecessário durante toda minha adolescência, e nos últimos meses tenho lido mais sobre e tentado entender mais meu corpo e a forma como ele age ao invés de simplesmente odiá-lo. Esse texto conjuntamente a thread da Bela Reis no twitter essa semana chegaram na hora certa e me fizeram entender o processo de uma forma completamente diferente. Outra coisa é em relação a ouvir as mais velhas, minha mãe, uma mulher negra, sempre me falou sobre fazer o banho de assento, que ela aprendeu com a mãe dela e assim por diante e eu sempre achei meio nada a ver a ideia quando mais jovem, hoje entendo que preciso escutá-la mais porque ela é a voz que me trás novamente em contato com minhas raizes, ancestralidade e contato com meu corpo. Como ela mesma diz: seu corpo é meu corpo minha filha, cuide de nós. Agraciada por esse texto, obrigada!

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