A experiência do afeto para a população negra

Ilustração: Tainá Esquível

Ao escrever fui tomada em proporções gigantescas. Há nessa escrita, pontos sensíveis no que tange a sobrevivência das mulheres negras. E a responsabilidade de dizer sobre a vida de tantas pessoas chegou gradualmente. Não por não compreender o significado, pelo contrário.

É a responsabilidade da tentativa de traduzir algo com ramificações e atravessamentos ainda não reconhecidos. É o estado de negação, porque diz sobre mim e, em diversificadas relações, pessoas que amo. Diz sobre o moço que todos os dias me dá bom dia no ônibus até meu avô.

A população negra, condicionada a viver em estado de sobrevivência, precisou e continua mantendo um contrato emocional. O racismo, enquanto estrutura social, é bastante estratégico em nos fragilizar, de modo que não seja tão nítida as ações que tomamos diariamente e as respostas direcionadas às nossas subjetividades.

Como uma dinâmica de vida, essa estrutura decide a que é reservada a trajetória de pessoas negras. Organiza em quais locais materiais e não materiais estaremos. Não só em um sistema econômico que nos oferece os piores empregos, cargos e papéis, há também o aspecto psicológico, que não nos reconhece enquanto seres de direitos à saúde pública ou à partilha de debates essenciais para a existência humana.

É mais fácil organizar na completude do sistema, pessoas que desconhecem sua história e até sua ancestralidade espiritual. A reserva fica por conta de um local que nos encaixamos sem escolha, o lugar da negação das nossas necessidades psíquicos-emocionais. Isso quer dizer que, os modelos de violência nos pede para resistir.

Essa luta constante por se manter vivo ocupa tempo, demanda e energia. O que também quer dizer que reagimos, e muito. Contudo, chegamos aqui através de caminhos que justificam ainda as novas e antigas maneiras que utilizamos para nos comunicar, pois todos esses passos deixaram cicatrizes profundas em nosso psicológico.

Os limites determinados para os nossos dizeres são mecanismos de distanciamento entre nós mesmas. Digo isso porque cresci compreendendo em meu pai, meus tios, a dificuldade em dizer a frase “eu te amo”, realidade de muitas famílias negras.

Não por não ter amor, simplesmente por ser uma continuidade das dificuldades de expressar isso em palavras. Todos esses anos foram feitas ligações para perguntar se almocei ou até mesmo comprar uma cerveja para tomarmos juntos que meu pai consegue dizer do afeto grandioso que sente por mim enquanto filha.

Talvez, esteja nessa tese o encontro com nossas dificuldades em falar afetuosamente com o outro ou aceitar que não somos um poço de fortaleza como nos afirmaram durante os anos de animalização dos corpos negros. Continuamos olhando sem o poder de ação pessoas negras tendo seu físico e emocional escravizado. Em um contexto histórico diferente, ainda não nos sentimos permitidos a chorar em público, reagir ao violento trato sócio-racial, pois bem, devemos.

Nasci nos anos 90. Não é muito tempo considerando a caminhada que estabelecemos. Ainda assim, mesmo com vinte e poucos anos, me vejo condicionada a apresentar uma mulher que sustenta suas dúvidas, necessidades, dores e tristezas sem remeter a fraqueza. Por exemplo, ao segurar o choro frente a situações desesperadoras e que ferem a minha saúde mental.

De situações mais difíceis até onde é reconhecidamente comum sentir dor, performamos força. Sim,  somos fortes, do contrário não suportaríamos tanto. Também podemos sentir dor ou qualquer sensação que nos retire desse papel desumano de fortaleza.É um exercício contínuo lembrar que não nos cabe o mísero papel de seres sem direitos emocionais, que não somos robôs com serviços já prescritos.

Por isso, o olhar romântico frente a essa experiência precisa ser quebrado. Não é natural que sejamos resistência e, por vezes, o cansaço virá. Existem alguns condicionamentos que retiram dos negros(as) a escolha  comportamental humana. É como se não tivéssemos escolha, e de fato não temos.

Nas senzalas nos disseram que não seria possível chorar, pedir arrego, reagir. Assim como, ficou estabelecido que laços eram consumidos e formatados para um conceito de seres humanos que não nos cabia. Tiraram de nós o direito do reconhecimento, do sofrer nas expressões, de amar nos toques, de olhar com calma, caminhar sem medo.

Sendo simbólica a separação entre pessoas negras por suas etnias e línguas, o que freava o comunicar entre a população negra escravizada desde a linguagem formal.A comunicação foi sendo dosada, em meio a determinações que nos restringia e afastava bruscamente nossas ligações coletivas, enquanto povo.

Mas, a violação física se põe muito mais nítida que os abusos psicológicos e suas consequências. Não porque encarar a dor física seja fácil, mas por conta de não ter nesses processos, direito ao tempo de reflexão sobre nosso psicológico.

Não éramos encarados como seres de direitos, permitidos ao pensar ou sentir. Ao povo negro nem o amor romântico, a depender adoecedor, era possível. Eu, que escrevo para vocês, de vez em quando, preciso conversar comigo mesma para saber se ainda estou sensível. Foi em mim que mais percebi tudo o que citei durante esse texto.

Em algumas ocasiões, me peguei assistindo um filme dramático com medo de não chorar. Foi daí que iniciei um processo de observação e me tornei meu próprio objeto de estudo. Ora, ora, preciso de uma narrativa cinematográfica para lembrar que sou um ser humano e que sentir é normal? Perguntas como essa ecoaram e agora chegam correndo quando começo a fazer da frase de mainha “engula o choro” um trajeto comum.

Por muitos anos dividir sentimentos, ficou por conta do olhar sincero de estar no mesmo lugar e não ter o que dizer ou fazer além de tentar sobreviver. Ainda hoje, o tempo que gastamos na ida e volta à faculdade, ao trabalho, o tempo que nos é roubado para que possamos comer, vestir, conhecer, é determinante nas nossas redes de afeto.

Por vezes, não há condições nem de pensarmos calmamente sobre nossas aflições. Não há tempo. Está todo mundo ocupado, sobrevivendo e é difícil amparar todas as pessoas negras que estão em vivências parecidas como essa. Mas, precisamos estabelecer a meta de aprender a nos amar enquanto povo, sentir que coletivamente somos parte de uma trajetória, para que possamos superar fases das violações de nossos corpos.

Inicialmente, é necessário dizer que dói e que há cansaço em lutar o tempo todo. A luta não é romântica como nas frases de impacto da publicidade ou nos textos das novelas. Se não dizemos, não conhecemos, e como será possível solucionar questões que não podem ser levantadas?

Entender que podemos sentir, chorar, cansar, é compreender que somos seres humanos de direitos à vida digna, que devemos sim questionar a maneira como o mundo pesa na nossa coluna e que merecemos mais do que escoliose por todo o peso.

É importante que saibamos que a terapia pode ser ocupada por nós. Escutar uma mulher negra no ponto de ônibus falando sobre sua vida, sem sequer nos conhecer faz parte do aprendizado e da consciência de que a ela foi negado o direito de expressar suas vivências. Exercitar a escuta sensível, ouvir com cuidado, dizer eu te amo no sentido mais expressivo das palavras é uma atividade que precisa ser feita. Em tempos difíceis, onde tudo é mais difícil para a população negra e trabalhadora. Não esconder é um grande passo para o entendimento de todas(os) nós enquanto homens e mulheres escravizadas (os) mas que recusam esse lugar.

Andreza Santos

JáPassouPorAqui: Andreza Santos, a rasta (atualmente) porque essa aí muda de cabelo toda hora, é formada no Bacharelado Interdisciplinar em Humanidades na Universidade Federal da Bahia (UFBA) e graduanda de Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela mesma insituição. Escrevendo nas horas vagas, Deza compartilhou suas reflexões atuando como colunista do portal.
“Falar para os nossos(as), é uma luta constante, permanente, que diz sobre um caminho que precisa ser publicizado, visto e compartilhado.” (Andreza)

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